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<title>O que eu vou comer amanhã</title>
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<tagline>ou: ainda é consumismo se for de graça?</tagline>
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<title>Formação</title>
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<![CDATA[<p>Um homem forte cresce, ou seja, torna-se homem, tendo que lidar com o fato elementar de que, simplesmente por ser o que é, possui, em si, a capacidade real e presente de, a qualquer momento, e de acordo com sua disposição, engajar-se num combate físico mano-a-mano e, em consequência disso, matar um outro homem com as próprias mãos, o que é exatamente mais real, e menos imaginário, de acordo com o grau dessa mesma disposição.</p>

<p>Por causa disso, cresce, ou seja, torna-se homem, tendo que lidar com o dilema moral que essa disposição determina. É preciso que não se disponha a matar esse outro, porque, caso contrário, ele o fará, mais cedo ou mais tarde.</p>

<p>Falo de homem forte, mas, em verdade, qualquer homem de força mediana enfrenta essa questão.</p>

<p>Apenas a um homem constitutivamente fraco não se apresenta o dilema de Caim <br />
frente a seu irmão.</p>

<p>Em consequência, um homem constitutivamente fraco será, também, um homem cuja moral terá de passar por outros caminhos, outros meandros, para se constituir naquilo que em geral chamaríamos de um bom caráter.</p>

<p>Não gostaria de ir ao ponto de dizer que isso implicaria, também, que tem esse homem suposto mais chances de perder-se, em termos morais, do que aquele outro, o constitutivamente mais forte. Embora, tendo-o dito, não me vêm argumentos fáceis para desdizê-lo, e a experiência do homem comum, a que temos acesso pela vivência e observação, não me oferece tais argumentos, uma vez que, a uma, são demasiados os homens sem caráter para que achemos muito restrita a circunstância de sua perdição, e a duas, do fato de que seja necessário, a esses homens fracos, um certo número de meandros, a fim de encontrar-se, não decorre que esses meandros sejam raramente encontrados, e poderia bem ser que houvesse mais homens fracos e de caráter, do que homens fortes, e que houvesse mais homens fortes sem caráter, do que homens fracos na mesma categoria, e justamente porque esses últimos terão precisado de enfrentar dilemas de maior monta, mais sutis ou mais exigentes que aquele outro, mais simples, com o qual iniciei toda essa argumentação, e que constitui a hipótese que estou tentando provar.</p>

<p>Considero, assim, secundária a questão de decidir se os homens fracos têm ou não mais chance de se perder, e também secundária a questão de decidir se, de fato, perdem-se mais que os outros, os homens fortes. Aliás, qualquer leitor deste blog, que como todos sabem, tenho em alta conta, consideraria falaciosa e perigosa a tentativa de estabelecer uma ligação direta entre a força física ou constitutiva de um homem a seu valor moral.</p>

<p>A questão, portanto, que tenho como primeira, aqui, é de saber se, de fato, aquele dilema é importante para aqueles homens que o enfrentam, e se, em decorrência disso, sua falta exige que os outros homens passem a enfrentar um certo número de outros dilemas para chegar às mesmas conclusões ou valores morais que farão, também deles, aquilo que em geral chamaríamos de homens de caráter.</p>

<p>Meus argumentos são fracos, na verdade: em primeiro lugar, me ocorre que esse pensamento não passa, em mim, de uma intuição, mas uma intuição poderosa o bastante para me colocar convicto de meu argumento. Não tão convicto que não o ponha à prova, aqui, mas também, por isso mesmo, mais convicto ainda, posto que uma hipótese que pomos à prova torna-se mais possante por esse mesmo motivo. Em segundo lugar, tenho, a favor dela, um dos documentos mais privilegiados para verificar alegoricamente o que são os padrões e modelos humanos, e que levanta minha hipótese como verdadeiramente essencial, apresentando-a na história de Caim e Abel na posição e altura em que apresenta. Finalmente, em terceiro lugar, possuo um argumento duplo, e de pouca valia, mas aqueles familiarizados com a maldição de Tirésias haverão de concordar comigo. Tal argumento consiste em que eu mesmo, tendo nascido com uma fraca constituição, e adquirido, com o passar dos anos, não apenas uma estatura mas uma condição de saúde bastante invejável, tenho o privilégio de conhecer os dois lados da moeda, e tendo passado por todos os meandros dos quais falo, e sem mencioná-los aqui, uma vez que a palavra meandros não se presta à dúvida e expressa verdadeiramente a dificuldade em explorá-los (o que, não obstante, tenho feito em outros lugares e momentos), acabei passando, eventualmente, pelo dilema oposto, ao qual aludo em primeiro lugar, e que, não menos do que os outros, me faz considerar a posição em que me encontro neste mundo, entre outros homens, iguais ou não tão iguais a mim.</p>

<p>Com isso, talvez os mais perspicazes entre vocês, ou aqueles mais atentos, ou simplesmente aqueles que, pelo peso das horas, acabe deparando-se, entre as linhas, com as mesmas sutilezas das quais agora me ocupo, acabem percebendo, ou acreditando, que penso estar em condições, pelo que acabo de afirmar, de ser juiz dos outros homens, ou que, pelo menos, me julgue moralmente superior, tendo passado por uma dupla prova, quando outros, diferentemente, enfrentaram apenas uma. Nada pode estar mais longe da realidade, quando efetivamente, ao referir Tirésias, tinha também a intenção de fazer ver que a dupla prova não é, de forma alguma, um privilégio, ou ao menos não é um privilégio que não atraia, em consequência, uma maldição. Se faço ver mais longe, ou mais fundo, ou mais após do que o comum dos mortais, se me faço de profeta ou opto por uma linguagem mais canhestra, misteriosa, ou simplesmente arrogante, e se assim mesmo disser verdades, se, portanto, tirar forças da minha deficiência ou maldição, e puder por isso enxergar onde outros veem somente trevas, isso não deve ser encarado como dom, mas simplesmente como a natureza compensatória daquilo que é mítico e que, por essa mesma razão, de ser mítico, não faz de mim um herói, apartado dos outros homens, iguais ou não tão iguais a mim, e mulheres, que não haviam ainda entrado nesta história, mas sim alguém que partilha, em igual medida que todos, daquilo que insufla esse mito, e que, sendo heroico, invejável, ou possante, não é menos terrível, doloroso, agourento.</p>]]>

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<title>A internet é um tesão</title>
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<modified>2009-11-18T03:35:55Z</modified>
<issued>2009-11-18T02:00:57Z</issued>
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<summary type="text/plain">Se vcs entrarem no blog do Radiohead, vão ver a coisa mais sensacional: os caras da banda colocam listas de música. Sim, como se fosse um disco, só a lista das músicas. Provavelmente o que eles estão ouvindo no tocador...</summary>
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<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Se vcs entrarem no blog do <a href="http://www.radiohead.com/deadairspace/" target=_blank>Radiohead</a>, vão ver a coisa mais sensacional: os caras da banda colocam listas de música. Sim, como se fosse um disco, só a lista das músicas. Provavelmente o que eles estão ouvindo no tocador de mp3. E o Johnny, pelo menos, cuja seleção é sempre mais rara, põe um link para um lugar onde se pode ouvir a lista dele.<br />
É como se eles te dissessem o que está alimentando a própria criação. Como se eu escrevesse, aqui, um monte de bobagem, colocasse um certo número de referências, copiasse uns textos, pra que quem leia tenha uma ideia de pra onde está indo minha criação.<br />
Espere, eu faço isso.<br />
Mas meu blog não é um tesão. Instalei um negócio chamado <a href="http://getclicky.com/stats/home?site_id=150806" target=_blank>Clicky</a>. Descobri agora que os 100 leitores que o weblog apontava são pura mentira. A não ser que 90 deles estejam me acessando por leitores RSS, tenho menos de 10 leitores por dia.<br />
Mas sou eu que estou enganado.<br />
Não é a falta dos outros 90 leitores que faz do meu blog menos tesão.<br />
Afinal, sei quem são os outros 10.<br />
Eles com certeza fazem do meu blog um tesão.<br />
Acharam que eu não ia terminar com um xaveco, hein!</p>]]>

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<title>Back to back</title>
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<summary type="text/plain">Então eu estou escrevendo o meu livro e mudando de apartamento. Grande coisa. Pois é, grande coisa....</summary>
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<![CDATA[<p>Então eu estou escrevendo o meu livro e mudando de apartamento.<br />
Grande coisa.</p>

<p>Pois é, grande coisa.</p>]]>

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<title>Todesfuge, reloaded</title>
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<modified>2009-11-12T19:33:02Z</modified>
<issued>2009-11-12T19:02:36Z</issued>
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<created>2009-11-12T19:02:36Z</created>
<summary type="text/plain">Agora sim, fechei com a versão final do poema. Atualizei no post inicial, que se acha aí Todesfuge - Paul Celan. Comentem, por favor. Uma tradução nunca é algo final....</summary>
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<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Agora sim, fechei com a versão final do poema.<br />
Atualizei no post inicial, que se acha aí<br />
<a href="http://homelupus.weblog.com.pt/arquivo/2009/10/todesfuge_paul.html">Todesfuge - Paul Celan</a>.<br />
Comentem, por favor. Uma tradução nunca é algo final.</p>]]>

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<title>Coisas que adoramos: poemas de ocasião</title>
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<modified>2009-11-11T13:11:23Z</modified>
<issued>2009-11-11T12:50:50Z</issued>
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<summary type="text/plain">Se eu soubesse que íamos ter um apagão, teria colocado mais gasolina no carro. Teria carregado o celular e pagado um provedor de internet discada. Eu teria mantido um lampião funcionando, e teria ido morar mais perto da minha namorada....</summary>
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<![CDATA[<p>Se eu soubesse que íamos ter um apagão, teria colocado mais gasolina no carro. Teria carregado o celular e pagado um provedor de internet discada. Eu teria mantido um lampião funcionando, e teria ido morar mais perto da minha namorada. Eu teria mais grafite pra lapiseira, porque não escrevo muito a lápis. Por ora isso vai ter que servir. Teria uma poltrona perto da janela, e uma mesinha ao lado para a cachaça, porque nessas condições posso me indispor com algum livro. Teria tirado o dobro de dinheiro no banco esta manhã, ou mesmo o triplo, embora não tenha muita vontade de sair de casa. Teria um quarto maior, onde eu pudesse fazer exercícios não só sentado e deitado, e teria gasto menos meus olhos, descansando mais. Teria menos comidas congeladas, mas provavelmente não me satisfaria tampouco com as conservas. As coisas são imprevisíveis quando o assunto é o apetite. Fiz bem em não ter doado todas as minhas revistas em quadrinhos. Teria aprendido o violão, o piano e o trumpete, e teria vizinhos que não se importariam de ouvi-los à noite, mas ao contrário, me cumprimentariam carinhosamente pela manhã, antes de irem ao trabalho. Eu teria mais plantas, elas não se importam com o escuro quando não é dia. Não teria toda essa mobília escura, mas sim um enorme tapete branco. Teria mais livros importantes na minha estante, e menos num diretório obscuro na pasta raiz. Moraria sozinho, mas teria uma xícara com o nome de cada um dos meus amigos, que é pra eles se sentirem na obrigação de vir exercer a propriedade de tempos em tempos, e o apagão pode durar muito. Teria um dicionário de espanhol, outro de italiano e outro de alemão, porque nunca se sabe o que esse clima pode nos fazer querer pensar. Teria pelo menos alguns pontos de encontro definidos, de modo a que não precisasse requisitar ninguém específico se eu me sentisse sozinho. Os acasos é que fariam dos encontros algo específico. Saberia mais músicas de cor, e teria aprendido a assobiar e tocar gaita. Talvez não seja tarde ainda. Saberia mais números de telefone de cor. Teria uma lousa de giz e muitos cartazes rabiscados com pincel atômico. Eles seriam a imagem do meu cérebro quando estivesse muito escuro pra enxergar. Eu teria mais o costume de pronunciar as palavras enquanto escrevo, e de cantarolar sozinho. Meu tocador de mp3 teria mais música clássica, e não só Mahler e Rachmaninov. E também discos raros do David Bowie, se é que os há. Teria uma outra escrivaninha.  A geometria das coisas muda de acordo com a direção de onde vem a luz. E pode se tornar muito angulosa e desconfortável. Teria mais travesseiros, mais almofadas. Definitivamente eu teria mais velas, e lugares adequados onde deixá-las. O medo de um incêndio é imanente, como se apenas estivesse apagado sob as luzes frias do dia-a-dia. Como se qualquer um pudesse acordar, no meio da noite, sob os gritos de socorro, de alguém ardendo em febre, ou em chamas. E eu fico pensando que tudo aquilo que fica, de comum, sob o nível da água, cristalinamente escondido, tivesse então que ser iluminado. Talvez não incidissem sobre ele as melhores luzes. Eu penso que o relógio não deve ser levado tão a sério, e como gosto de dormir tarde, posso achar incrível que a maior parte da nossa vida, ou ao menos boa parte dela, tenha que se passar no escuro. E penso, também, que no escuro as perguntas que nos fazem levam mais tempo pra chegar até nós, e assim também é normal que levemos mais tempo para responder. E acho curioso que as metáforas de pensamento, por exemplo, reflexão, sejam metáforas de luz.</p>]]>

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<title>Não importa se foi comigo</title>
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<modified>2009-11-10T05:20:08Z</modified>
<issued>2009-11-10T05:19:14Z</issued>
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<summary type="text/plain">Encontrei uns amigos do colégio, e um deles me lembrou dessa história, que eu infelizmente tinha esquecido: De ter saído na mão com um cara, por causa de uma menina, sendo que ela não queria saber nem de mim nem...</summary>
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<![CDATA[<p>Encontrei uns amigos do colégio, e um deles me lembrou dessa história, que eu infelizmente tinha esquecido:<br />
De ter saído na mão com um cara, por causa de uma menina, sendo que ela não queria saber nem de mim nem do outro. E que hoje ela é um canhão.</p>]]>

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<title>De um newsletter que eu participo</title>
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<modified>2009-11-05T03:54:39Z</modified>
<issued>2009-11-05T02:28:32Z</issued>
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<![CDATA[<p>Ah, que maravilha que o GG escreveu, e a Maiara, e o Paulom. Porque fiquei conhecendo o blog dessas duas maravilhas, <a href="http://marjorierodrigues.wordpress.com/" target=_blank>Marjorie Rodrigues</a> e <a href="http://beauvoriana2.zip.net/" target=_blank>Mary W.</a>, porque fiquei achando a história mais interessante e mais importante do que de primeira, e porque deu vontade de falar com todos vocês de novo.</p>

<p>Primeiro, apesar da precisão da análise dessa Mary W., acho que ela errou dizendo que a Uniban foi feita pra formar um público crítico. Isso é o que a gente queria que fosse, mas acontece que é uma instituição privada e além disso é uma instituição de ensino superior privada, o que, desde o Ministro Paulo Renato, da Educação, do FHC, significa que ela não serve para formar um público crítico, mas pra fazer o que quer que o dono dela decida que ela deve fazer. E, no caso, todo mundo sabe que a Uniban foi criada pra lavar dinheiro do jogo do bicho.</p>

<p>Então é claro que é inútil discutir o caráter de qualquer pessoa envolvida diretamente na história, porque, como disse a Mary W., trata-se de uma massa acrítica, o resultado da máquina de moer carne e lavar dinheiro. Não é a liderança momentânea, que põe fogo na massa, o que importa. Em certo sentido, o líder também faz parte da massa (não, não vale nem um centavo a mais). Eles fizeram o que estavam programados pra fazer. Eu não vi o vídeo, não sou psicólogo e não trabalho com material pornográfico (não falo da saia, evidentemente, mas é uma lista pública e há aqui os que não sabem que também não sou irônico), mas é óbvio que nada saiu dos conformes ali. Apenas a barbárie ficou explícita. Mas a barbárie já está instalada nesses lugares há muito tempo.</p>

<p>A comparação do GG é precisa também. O cara do metrô, na época a juíza Christine Santini (é preciso dar nome aos bois, essa é uma lista pública e ela uma autoridade, hoje desembargadora estadual), titular na Vara onde eu trabalhava, ela estava em Londres, e na volta comentou sem dó, tinha que ter atirado mesmo. Era a opinião dela, é claro que sendo juíza ela não precisa lidar com a habilidade de fazer decisões éticas ao calor do momento. Mas a polícia sim, e no entanto fracassaram. Porque viviam na barbárie, naquela época. A polícia inglesa. Famosa mundialmente por tolerar xingos e respeitar as liberdades individuais. Não é à toa, as liberdades individuais foram inventadas na Inglaterra. Se eles não bancarem isso, o mundo acaba. Nesse sentido, é bem verdade o que disse. Acabou mesmo. E na Uniban é a mesma coisa. Fracassaram, todos eles, porque já viviam a barbárie. Tantos alunos, então, dizendo que isso manchou o nome da universidade. Efetivamente, eu teria trancado a matrícula no dia seguinte. But then again, já não teria me matriculado ali in the first place. Não, essa preocupação deles me lembra os nazistas escondendo seu passado. Me lembra o Brad Pitt marcando uma suástica na testa dos nazistas com a ponta da faca.</p>

<p>Todo mundo sabe que eu não gostava da São Francisco. Que eu me envergonhei mais de uma vez por estudar lá. Mas, embora ali também seja, por outros motivos, uma máquina de moer gente, a barbárie não estava lá instalada. É verdade que era uma sombra ameaçadora, mas não estava lá instalada. A existência da Academia de Letras, e mesmo desta lista, é uma prova disso.</p>

<p>Mas na Uniban a barbárie está instalada, e infelizmente não há resposta pronta pra fazer um lugar deixar de abrigar a barbárie. O máximo que podemos fazer, isto é, não estou falando de revolução, é marcar com ferro. Pra não esquecer. Porque não devemos esquecer. Se estes são os nossos universitários, são um pouco de nós. Se isso acontece na nossa cidade, no nosso país, com pessoas com quem convivemos, mais ou menos bem, que encontramos no cinema, no shopping, bem perto, que podemos contratar ou que podem nos contratar ou com quem podemos nos associar pra trabalhar juntos, ou que podemos encontrar num estádio de futebol ou num banco de delegacia, então estamos um pouco próximos da barbárie.</p>

<p>Mais perto do que gostaríamos. Isso é o que eu acho que o GG queria dizer, que estava faltando nessa história.</p>

<p><br />
PS.: agora relendo, quero esclarecer dois pontos: não quis dizer marcar com ferro como se marca o gado, mas marcar com ferro como se dá nome aos bois. E também não quis dizer perto, como querendo dizer, no banco do lado. Quis dizer, no nosso próprio banco.</p>]]>

</content>
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<title>Putz</title>
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<modified>2009-11-04T03:54:30Z</modified>
<issued>2009-11-04T03:43:30Z</issued>
<id>tag:homelupus.weblog.com.pt,2009://3969.443130</id>
<created>2009-11-04T03:43:30Z</created>
<summary type="text/plain">Estou fodendo de novo meus próprios combinados. Combinar consigo mesmo dá nisso: vc acaba se aproveitando no lado do sadismo e no lado do masoquismo. Mas então isso já fica parecendo pornografia, e já disse que nunca ia falar de...</summary>
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<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Estou fodendo de novo meus próprios combinados.<br />
Combinar consigo mesmo dá nisso: vc acaba se aproveitando no lado do sadismo e no lado do masoquismo.<br />
Mas então isso já fica parecendo pornografia, e já disse que nunca ia falar de cinema aqui.<br />
Mas por falar nisso, chequem os links novos: Bazárov, o Nerd e Astier, cujo nome não é um acrônimo.</p>

<p>Ah, tanta coisa pra dizer, tão pouco tempo pra arriscar.</p>

<p>Estou cumprindo promessas em outras partes, pelo menos.</p>

<p>Sei que aqui isso não vale muito.</p>

<p>Mas eu ando feliz como naquele poema.</p>]]>

</content>
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<title>No entanto... (já não terei dito isso? Não)</title>
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<modified>2009-10-29T03:24:25Z</modified>
<issued>2009-10-29T05:22:23Z</issued>
<id>tag:homelupus.weblog.com.pt,2009://3969.442860</id>
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<summary type="text/plain">Está bem, são só duas coisas: eu conheço o único judeu jesuíta que existe. E a Marcinha Bechara escreveu um livro maravilhoso, a Ana leu pra nós hoje uns trechos. Chama-se Métodos extremos de sobrevivência. A carta ao pai de...</summary>
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<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Está bem, são só duas coisas: eu conheço o único judeu jesuíta que existe.<br />
E a Marcinha Bechara escreveu um livro maravilhoso, a Ana leu pra nós hoje uns trechos. Chama-se Métodos extremos de sobrevivência. A carta ao pai de Kar-el é inacreditável.</p>

<p>E Kqi, parabéns pelo aniversário. Não são muitos que se passam assim.</p>]]>

</content>
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<title>Se eu contasse...</title>
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<modified>2009-10-29T00:24:23Z</modified>
<issued>2009-10-28T23:34:49Z</issued>
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<summary type="text/plain">... mas não posso contar. Eu sei que isso é sacanagem, mas é pra vcs saberem que é a única. O motivo de não contar não é esse, portanto. Mas não posso contar mesmo assim. Mas vão lá no blog...</summary>
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<content type="text/html" mode="escaped" xml:lang="en" xml:base="http://homelupus.weblog.com.pt/">
<![CDATA[<p>... mas não posso contar. Eu sei que isso é sacanagem, mas é pra vcs saberem que é a única.<br />
O motivo de não contar não é esse, portanto.<br />
Mas não posso contar mesmo assim.</p>

<p>Mas vão lá no blog da Ana, deve ter as fotos do lançamento do livro do Juliano Pessanha. Pelo menos foi o que <em>ela</em> prometeu.</p>

<p>Fora isso, nos vemos nas Satyrianas fim de semana. Sem saco pra links hoje, though. Sorry.</p>]]>

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<title>Repensando</title>
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<modified>2009-10-28T01:18:54Z</modified>
<issued>2009-10-28T01:02:22Z</issued>
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<created>2009-10-28T01:02:22Z</created>
<summary type="text/plain">Aqui não se fazem promessas. Aliás, isso não é uma promessa. Estou repensando no poema publicado ontem, a Ana Rüsche sugeriu seguir a solução do Modesto Carone para o refrão. Em parte. Estou testando. Essas coisas precisam de testes, então...</summary>
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<name>homelupus</name>

<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Aqui não se fazem promessas.<br />
Aliás, isso não é uma promessa.<br />
Estou repensando no poema publicado ontem, a Ana Rüsche sugeriu seguir a solução do Modesto Carone para o refrão. Em parte. Estou testando. Essas coisas precisam de testes, então não é sabido isso?</p>

<p>Entrementes, tenho na manga umas cartas.<br />
Falar sobre os emos -- isso ficou para outro lugar, já disse, para a <a href="www.revistasom.com.br" target=_blank>revista da Ju</a>, cada vez mais maravilhosa (isso era segredo, não espalhem por aí, sim?)<br />
Falar sobre o Futuro de uma ilusão, do Freud. Mas desculpem a demora, não é sem mais nem menos que se fala mal do Freud. E também, claro, é só como pretexto pra falar bem depois. Mas também isso talvez fique para outro lugar.<br />
E a reforma ortográfica. Mas também aqui há muita responsabilidade envolvida, não é de qualquer jeito (isto é, como o sono que estou).<br />
Andam ligando meu blog por aí, chamando minhas bobajadas de ensaios. Já não basta aquele que encontrou meus <a href="http://homelupus.weblog.com.pt/arquivo/2008/05/el_genero_epist.html" target=_blank>"Do gênero epistolar"</a> enquanto procurava uma definição, e de tão frustrado, descontou nos comentários. Eu já devo ter falado sobre isso em outro lugar, e não faço a ligação pra provar que não é por autopromoção que eu fico ligando meu próprio blog, é só frustração minha de que o campo "Search" nunca funcionou por aqui (tanto que eu tirei ele da página -- code is poetry e falta de code is poetry).</p>

<p>E prometo que vou estar escrevendo melhor da próxima vez, mas é que tinha prometido pra mim mesmo publicar de um jeito ou de outro, porque senão era capaz de demorar até a Páscoa...</p>]]>

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<title>Todesfuge</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://homelupus.weblog.com.pt/arquivo/2009/10/todesfuge_paul.html" />
<modified>2009-11-12T19:58:52Z</modified>
<issued>2009-10-26T20:02:18Z</issued>
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<summary type="text/plain">Justificativa: eu não sei muito de alemão, e não saber latim também não ajuda. Mas existem muitas traduções deste poema para consultar (ver abaixo) de modo que achei que podia tentar apresentar minha própria versão. Eu sentia das traduções existentes...</summary>
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<name>homelupus</name>

<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Justificativa:<br />
eu não sei muito de alemão, e não saber latim também não ajuda. Mas existem muitas traduções deste poema para consultar (ver abaixo) de modo que achei que podia tentar apresentar minha própria versão. Eu sentia das traduções existentes um tom errado, embora em outros aspectos bem feitas. Também quis apresentar minha própria versão porque eu tenho, de qualquer maneira, uma leitura aprofundada do tema, como também da forma. Além daquele poema (<a href="http://homelupus.weblog.com.pt/arquivo/2008/08/nao_e_nada_dema.html" target=_blank>Não é nada demais</a>), todo o sexto capítulo, que ainda não terminei, do meu livro, é em cima da forma fuga. Espero que essa versão possa somar-se àquelas existentes, para que de um modo geral possamos ter uma melhor aproximação desse poema, que é, sem dúvida, um dos mais importantes do século passado.</p>

<p>
<h2><em><strong class="Especial">FUGA À MORTE</h2></em></strong>
<h2><p class="subtitle"><em>Paul Celan (1948)</em></p></h2>
<h2 class="poem">Leite negro da alvorada nós o tragamos de tarde</h2>
<h2 class="poem">nós o tragamos ao meio-dia e de manhã nós tragamos de noite</h2>
<h2 class="poem">e tragamos e tragamos</h2>
<h2 class="poem">nós cavamos uma tumba nos ares lá não se deita espremido</h2>
<h2 class="poem">Na casa mora um homem que brinca com as serpentes que escreve</h2>
<h2 class="poem">que escreve quando está escuro para a Alemanha teu cabelo doirado Margarete</h2>
<h2 class="poem">ele escreve isso e sai à porta e brilham as estrelas ele apita aqui venham meus cãezinhos</h2>
<h2 class="poem">ele apita já em fila venham meus judeuzinhos para cavar uma tumba no chão</h2>
<h2 class="poem">ele nos ordena já tocai para a dança</h2>
<br />
<h2 class="poem">Leite negro da alvorada nós te tragamos de noite</h2>
<h2 class="poem">nós te tragamos de manhã e meio-dia te tragamos de tarde</h2>
<h2 class="poem">e tragamos e tragamos</h2>
<h2 class="poem">Na casa mora um homem que brinca com as serpentes que escreve</h2>
<h2 class="poem">que escreve quando está escuro para a Alemanha teu cabelo doirado Margarete</h2>
<h2 class="poem">Teu cabelo de cinzas Sulamita nós cavamos uma tumba no ar lá não se deita espremido</h2>
<br />
<h2 class="poem">Ele esbraveja espetem fundo no solo vocês uns vocês outros cantem e toquem</h2>
<h2 class="poem">ele agarra o ferro na cintura ele gira seus olhos são azuis</h2>
<h2 class="poem">espetem fundo as pás vocês uns vocês outros tocai para a dança ainda</h2>
<br />
<h2 class="poem">Leite negro da alvorada nós te tragamos de noite</h2>
<h2 class="poem">nós te tragamos meio-dia e de manhã te tragamos de tarde</h2>
<h2 class="poem">e tragamos e tragamos</h2>
<h2 class="poem">na casa mora um homem teu cabelo doirado Margarete</h2>
<h2 class="poem">teu cabelo de cinzas Sulamita ele brinca com as serpentes</h2>
<h2 class="poem">Ele esbraveja toquem mais suave a Morte que a Morte é um mestre na Alemanha</h2>
<h2 class="poem">ele esbraveja golpeiem mais grave os violinos daí subam no ar como fumaça</h2>
<h2 class="poem">daí vocês têm uma tumba nas nuvens lá não se deita espremido</h2>
<br />
<h2 class="poem">Leite negro da alvorada nós te tragamos de noite</h2>
<h2 class="poem">nós te tragamos meio-dia a Morte é um mestre na Alemanha</h2>
<h2 class="poem">nós te tragamos de tardinha e manhãs nós tragamos e tragamos</h2>
<h2 class="poem">a Morte é mestre na Alemanha seu olho é azul</h2>
<h2 class="poem">e te atinge com bala de chumbo te atinge e é só</h2>
<h2 class="poem">na casa mora um homem teu cabelo doirado Margarete</h2>
<h2 class="poem">ele incita seus cães pra cima de nós nos presenteia uma tumba nos ares</h2>
<h2 class="poem">ele brinca com as serpentes e sonha a Morte é um mestre na Alemanha</h2>
<br />
<h2 class="poem">Margarete teu cabelo doirado</h2>
<h2 class="poem">Sulamita teu cabelo de cinzas</h2>
<br /><p class="left"><em>(trad. Rafael Rocha Daud)</em></p>

<p>Outras traduções para consulta, algumas com soluções bastante interessantes, e os valores que <em>tentei</em> contrabandear para a minha tradução:</p>

<p><a href="http://www.arquivors.com/fuga.htm" target=_blank>Fuga da morte -- por Renato Suttana</a> - a melhor solução para o refrão<br />
<a href="http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/pi03/pi230301.htm" target=_blank>Fuga da morte -- por Modesto Carone</a> - preserva a oralidade da sintaxe original<br />
<a href="http://www.culturapara.art.br/opoema/paulcelan/paulcelan_poema.htm" target=_blank>Fuga sobre a morte -- por Claudia Cavalcanti</a> - a mais precisa semanticamente<br />
<a href="http://www.germinaliteratura.com.br/literaturard_nov2006.htm" target=_blank>Fuga da morte -- por Ricardo Domeneck</a> - com um estudo crítico sobre a tradução<br />
<a href="http://www.celan-projekt.de/todesfuge-englisch.html" target=_blank>Deathfugue -- por John Felstiner</a> - assim fica mais fácil, mas o tom ainda sofre</p>

<p>E o poema original:<br />
<a href="http://www.celan-projekt.de/todesfuge-deutsch.html" target=_blank>Todesfuge -- Paul Celan</a><br />
<a href="http://www.youtube.com/watch?v=gVwLqEHDCQE" target=_blank>A leitura em alemão pelo próprio poeta</a></p>]]>

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<title>But then again...</title>
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<modified>2009-10-24T01:42:31Z</modified>
<issued>2009-10-24T02:41:01Z</issued>
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<summary type="text/plain">É preciso ter suas teorias. Mas, na hora de fazer poesia, é preciso trair-se, também. Poesia não é tradução do mundo? Sim, é preciso trair-se também aqui. Everywhere, é preciso....</summary>
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<name>homelupus</name>

<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>É preciso ter suas teorias.<br />
Mas, na hora de fazer poesia, é preciso trair-se, também.<br />
Poesia não é tradução do mundo?<br />
Sim, é preciso trair-se também aqui.<br />
Everywhere, é preciso.</p>]]>

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<title>Os que ouvem com a garganta</title>
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<modified>2009-10-23T03:02:06Z</modified>
<issued>2009-10-23T03:01:01Z</issued>
<id>tag:homelupus.weblog.com.pt,2009://3969.442391</id>
<created>2009-10-23T03:01:01Z</created>
<summary type="text/plain">Fomos ontem à Sala São Paulo ver um pianista russo chamado Arcadi Volodos. O programa parecia muito bom: Schriabin, Ravel, um moço espanhol que eu esqueci o nome agora e Liszt. Claro que, ao entrar naquele grande edifício, nos lembramos...</summary>
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<name>homelupus</name>

<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>Fomos ontem à Sala São Paulo ver um pianista russo chamado Arcadi Volodos.<br />
O programa parecia muito bom: Schriabin, Ravel, um moço espanhol que eu esqueci o nome agora e Liszt. Claro que, ao entrar naquele grande edifício, nos lembramos que, embora talvez a maioria vá mesmo pela música, aqueles que vão pelo status dão o tom e o ar na entrada. Quase nos arrependemos, mas então: Schriabin! e seguimos. A sopinha cai bem, embora ontem eu a tenha dispensado; faltando lugar para sentar, ficamos perto de uma porta, e de repente o cheiro que vem de fora nos faz lembrar o quanto aqueles, que estão ali pelo status, estão mal informados. O status é outro, meus queridos. O status é outro. Não vou dizer que fazemos questão de parar na rua, dizendo que mais vale a companhia dos drogados e mendigos à dos carrões espaçosos e lentos; embora seja verdade. Ao menos entramos menos deslumbrados.<br />
O que é uma coisa importante, porque assim que o silêncio da sala começa a se fazer ouvir, podemos ouvir com ele os pigarros e tosses, como se fosse impossível para alguns simplesmente manter a boca fechada. Como se escutassem com a garganta. Ou como se tivessem o queixo permanentemente colado ao peito.</p>

<p>Entra então o músico, um gorducho simpático, que faz uma grande deferência, e senta-se numa cadeira de escritório. Já vi viradores de página que faziam questão de banquinhos de piano estofados. Ele parece ter requerido explicitamente a cadeira com encosto. O engraçado é que, numa sala, uma cadeira de escritório pareceria o mais formal dos móveis, mas no meio da moderna e bela Sala São Paulo, era a coisa mais informal possível, muito mais que as nossas calças jeans e olheiras semanais.</p>

<p>O que ele fez sobre aquele piano é algo difícil de descrever, mas me ocorreram algumas imagens. Primeiro, seus <em>legatos</em> soavam como se o teclado fosse feito de água, e soasse ao toque dos próprios dedos. Ninguém suspeitaria que existe dentro daquela caixa preta um sistema de martelos e cordas. O gorducho corria aquelas teclas não como se tocasse uma partitura, mas como se ouvisse uma música distante e, totalmente tomado pela melodia, sacudisse os braços no ar tentando acompanhá-la. Ele efetivamente parecia mais ouvir do que tocar, mas não o tempo todo. Em boa parte do tempo, parecia resolver tomar parte na composição: improvisava. Não de verdade, tenho certeza que as notas pertenciam à partitura. Embora ela não estivesse presente -- já viram a quantidade de concertistas que mantém a partitura à frente? Mas ele parecia não se dar conta, e tocava como se tivesse a intenção de nos fazer ver o que sentia, e nada mais. Quando se dava conta de que estávamos ali: poderia ser que houvesse convidado os amigos mais íntimos para um jantar, e enquanto esperavam a sobremesa, decidisse sentar-se, com o estômago cheio, pare dedilhar algumas coisinhas. O caso é que essas coisinhas era tão russas como ele -- Schriabin -- e vibravam de uma tal maneira que, tivesse ele mesmo terminado um jantar, fariam-no girar sobre si mesmo dentro. Mas não, Arcadi quase não se mexia, sobre a cadeira de encosto, seus braços se movendo agora como se regesse a própria música, e não víamos os músicos que a executavam. Talvez fossem pequenos homenzinhos sobre os seus dedos, escondidos sobre o teclado. Ele deitava a cabeça pra trás, esse homem que quase não tem pescoço, e ouvia com os dedos, com a língua, com os ouvidos os menores que já se viu.</p>

<p>Depois de um tempo, durante o qual passados do <em>fff</em> para o pianíssimo, ele parecia de repente se lembrar de que havia uma partitura a seguir, e voltava concentrado. Em certos momentos porém, interrompia a execução -- pausas curtas, talvez pouco mais que semínimas, mas que equivaliam a um quase intervalo -- olhava para o alto como se de repente houvesse se distraído no assunto, e buscasse retomar o fio da meada, até que voltava, como que inspirado por uma ideia nova que gostaria de experimentar.<br />
Ficávamos pasmos de que aquele improviso constante, aquele dedilhar que lembrava um pouco talvez Steve Ray Vaughan ou algo mais tradicional, soava tão incrivelmente harmônico. Quando ele não olhava as teclas, e parecia voltar os olhos pra dentro, não atrás das grandes profundezas, mas do sentimento mais intenso, mais veraz, que efetivamente se expressava na sua sobrancelha e queixo, não podíamos deixar de nos surpreender que voltasse, de lá, nada de sons desconexos, nada confuso, mas um som brilhante, vivo, e era impossível não desconfiar de algum truque: talvez aquele piano tenha sido construído de tal forma que não possa emitir sons dissonantes.</p>

<p>Ele tocou, naquela ordem, e com a mesma clareza e vivacidade, todo o repertório. Ao final, foi simplesmente ovacionado. Voltou, e como não parecia estar cansado -- estivera, a final de contas, divertindo-se ao piano, gracejando com seu estado de humor; é quase uma abstração dizer que tocou, e que tratava-se de um repertório --, sentou-se novamente e, como que para acalmar a todos, antes do fim da noite, após ter quase quebrado o piano ao final da <em>fantasia quasi sonata</em> de Liszt como se fôra um guitarrista em êxtase, tocou uma canção bellísima, tão suave e doce que era preciso abraçar alguém e rir baixinho. Em seguida levantamos e, saídos da sala, voltamos para a soleira para um segundo bis, tão generoso estava aquele russo, um pequeno estudo que não pude identificar, e ainda pisando fora do edifício ouvíamos os assobios, os urros, as palmas.</p>

<p>PS.: já vi, é Albéniz, o espanhol, La Vega é uma peça encantadora, recomendo.</p>]]>

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<title>Perco o amigo...</title>
<link rel="alternate" type="text/html" href="http://homelupus.weblog.com.pt/arquivo/2009/10/perco_o_amigo.html" />
<modified>2009-10-22T02:26:33Z</modified>
<issued>2009-10-22T03:01:01Z</issued>
<id>tag:homelupus.weblog.com.pt,2009://3969.442334</id>
<created>2009-10-22T03:01:01Z</created>
<summary type="text/plain">...mas não perco a teoria: a poesia depende, assim, de três coisas, todas três difíceis, que são: &quot;Manter-se fiel à sua própria verdade&quot; Claro que as haspas são ezemplificativas da minha própria sabiduria. (grifo nosso) Difíceis, diremos, em três diferentes...</summary>
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<name>homelupus</name>

<email>delmerado@yahoo.com.br</email>
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<![CDATA[<p>...mas não perco a teoria:<br />
a poesia depende, assim, de três coisas, todas três difíceis, que são:</p>

<p><strong>"Manter-se fiel à sua própria verdade"</strong></p>

<p>Claro <strong>que as</strong> haspas são ezemplificativas da minha própria sabiduria. <em>(grifo nosso)</em><br />
Difíceis, diremos, em três diferentes níveis.<br />
Primeiro, é preciso manter-se fiel. Independente de a que seja, não tem sido fácil, nos tempos dos amores fluidos, do progresso e da obsolescência programada (Não são três nomes da mesma coisa? São.), não dizer, como eu naquele maravilhoso poema que ainda não publiquei: "lealdade é para os cães, como se diz" <em>(sic)</em>.<br />
Segundo, bastando que o desinfeliz seja capaz de se manter fiel ao seu cachorro, não é obrigatório que saiba se manter fiel à sua verdade. Isso é algo muito diverso, como é diversa a verdade do homem e pode ser, inclusive, seu cachorro. Aliás a Virginia Woolf escreveu sobre o cachorro dela e esse livro vende-se em loja de conveniência de posto de gasolina, caso alguém esteja interessado. Chama-se Flush, mas o cachorro da capa é a Lassie. Aliás não sei se o cachorro era dela de verdade. O Paul Auster também, escreveu o Timbuktu, que é pra onde vai o seu cachorro, embora esse, eu sei, não era o cachorro dele, mas do seu personagem. Aliás não é o cachorro quem vai, é o dono, e não é Timbuktu não, é só o nome que o cachorro dá pra esse além do homem. Tudo muito humano, portanto.<br />
Terceiro (porque eu ia falar mais alguma coisa sobre a verdade, mas vamos ficar com o cachorro, por essa semana), não basta que ele seja fiel a alguma coisa, e que essa coisa seja a sua verdade, o que por si já mostra-se suficientemente complicado, e material suficiente para fazer um poeta, porque não tem nada mais arisco que a verdade pra gente querer se manter fiel. Aliás, explicou-me um amigo meu, a quem a própria verdade confessou no ouvido, ela é a primeira a afirmar: "Eu sou uma puta". Mentira, a puta se compra com dinheiro, a frase original dizia "vadia". É que me pareceu uma tradução da Companhia das Letras, então eu preferi consertar à revelia. Não adiantou, o mundo é à revelia.<br />
Mas...<br />
eu ia dizendo que é preciso que essa verdade seja relevante. É como o que o Cortázar (desculpem, escapou, esse eu li mesmo) dizia a respeito do conto: é preciso haver intensidade. Porque a triste verdade é que a maior parte de nós tem, a maior parte do tempo, só coisas medianas pra dizer. E por mais que o façamos com arte (já dizia que bastava ser fiel à sua verdade para ser um poeta) pode muito bem ser que essa arte não interesse a ninguém. E não que estejam todos mais interessados em jogar GameBoy ou World of Goo, é que é bem provável que não interesse mesmo a ninguém -- o que o jornal faz parecer, pela seleção que faz da Bruna Beber e de um tal Ramon Mello ao lado das suas resenhas, se aplicar a eles --. E embora seja chique citar Caymmi -- desculpem, estou me perdendo, mas não estou mesmo aqui pra fazer amigos -- é óbvio que o jornal não vai publicar de preferência aqueles poemas que têm, obviamente, relevância poética. Isso equivaleria a considerar que a poesia...</p>

<p>Não, eu já tinha me perdido.<br />
A começar pelo fato de que não é verdade que a maior parte de nós tem a maior parte do tempo só coisas medianas pra dizer. É verdade que o fazemos, mas isso é pra descansar a cabeça, não por falta do que dizer. Eu hei de testemunhar o quanto o mais insano dos seres é capaz das maiores verdades, contanto que lhes perguntem... e que se sintam dispostos a falar. Aliás, pra não dizer que falam mesmo sem querer...<br />
Além disso, é falsa essa expressão: relevância poética. Usei ela pra rimar, mas a verdade é que a relevância não precisa ser poética. Tem coisas demais relevantes, e a poesia surge de serem relevantes, e poderem ser ditas de maneira insuspeitada.<br />
Assim é evidente, isso sim, que um cachorro e Caymmi no falante são pura matéria de poesia. Porque isso não diz de quem acaricia o cachorro, não diz do que rola na sala enquanto se ouve Caymmi. E isso, que é insuspeitado, é que é a verdade, e sendo relevante, torna-se suspeita.</p>

<p>Talvez eu não tenha perdido o amigo, afinal. Segredos não são coisas que se guardem a sós.</p>]]>

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