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novembro 25, 2009

Inútil

Quanto mais eu trabalho, mais eu penso, e mesmo um fim-de-semana prolongado não me permite dar descanso a essa mente grosseiramente fértil, isto é, ao contrário! Descansado, e não tendo tido descanso o dia todo, tive ideias demais, em vez de ficar prostrado. Chegou a noite, e não consegui desligar.
Tenho o título do outro livro, o que eu estou planejando há anos, mas do qual ainda não escrevi uma linha -- claro, porque há o Dêixis e o Poemas para o Século XX na frente da fila -- fora a empolgação que me faz escrever em línguas.

Não, fiquei um pouco frustrado ao me reconhecer no livro do Gombrowicz. Um poeta inédito. Sim, desses loucos, que andam pela rua falando sozinhos, para ter certeza de que suas obras não vão acabar junto com eles. Por causa não de um poema meu, mas da tradução que fiz do poema do Celan. Parece que ninguém deu muita bola, tirando a Ana Rüsche, que não conta porque me ajudou. Não, não devo reclamar, isso é deprimente.

Por que diabos então fui ler Gombrowicz? Esse é um daqueles escritores que eu sempre tive respeito, mesmo sem ler. Influência, neste caso, do <a href="eu.pagaria.pra.ver.um.blog.aqui" target=_blank> Juliano </a>, e em verdade as ideias do escritor são muito boas, tendo a concordar com elas 70% (o que é muito, não há dúvida), mas sinto que ele não logra realizar a obra. É a segunda vez que pego um livro dele para ler e rateio. Este agora é o Ferdydurke, e como tem um certo humor, pode ser que eu consiga terminar. Além disso, não é desprovido de valor. Mas, puxa, já não é possível admirá-lo. Já não posso roubá-lo, quero dizer, ou furtá-lo. Sim, furtá-lo talvez, mas mais provável que não. E um autor que não necessitamos roubar não é um autor que necessitemos ler. Porque ler é roubar. É o que venho tentando dizer.

Mas essa é a minha coisa com o respeito. Se eu tenho alguma coisa de sobra, é respeito. Bom, talvez ignorância, mas o povo de Inverno acharia que estava me jactando, então fiquemos só com respeito. Sim, tanto, que é difícil alguém se livrar de mim, quando eu chego a conhecê-lo bem. Isto porque respeito tanto essa pessoa, inevitavelmente, que faria um mal muito grande ao respeito que a própria pessoa nutre por si de repente se ver alijada do respeito que eu nutri por ela. Porque esse, frequentemente, é maior. A não ser, claro, quando esse mesmo respeito deixa a pessoa tão envergonhada, supondo que não pode haver nada de mais enganoso e hipócrita do que manter esse respeito alimentado, supondo que ele não tem nenhuma, a mais remota, razão de ser, tal é o desprezo que nutre por si mesma, que não pode fazer mais nada além de, realmente, livrar-se de mim. Porque às vezes não chego a nutrir um respeito tão grande pela pessoa a ponto de respeitar a ideia que ela faz de seu próprio valor. E há, também, a outra exceção, baseada no fato simples de que eu, a par de ser extremamente respeitoso, sou também extremamente preconceituoso, e embora a balança pese de maneira mais ou menos aleatória, ao menos vista a olho nu, para um lado ou outro, há um certo número considerável de casos a que simplesmente deixo de devotar qualquer grau de respeito, senão o mais completo e desinteressado desprezo.

Isso não é uma declaração de moral ou caráter, como se vê, mas simplesmente uma constatação lógica daquilo que penso não se afastar muito do normal, e fazendo parte da minha maneira de ser, vejo como sendo absolutamente normal, senão um pouco excêntrica apenas.

Tive um impulso de furtar algo do Gombrowicz, por um instante, mas passou. Não valia a pena.

Sim, infelizmente sou escolado demais na arte da imaturidade para achar que ele pode me ensinar qualquer coisa, ou que eu possa me aproveitar insuspeitadamente.

Mas não queria entrar no mérito do livro, uma vez que ele escapa ao escopo da minha admiração, mas também não cai no do preconceito, e não nutrindo o escritor um desprezo invencível por si mesmo -- não nutria vivo e certamente não nutre agora, morto -- escapa igualmente ao escopo do post de hoje, que se torna, por esse motivo, inútil.

Eu só devia ter escrito que estou jogando Machinarium.

Publicado pelo homelupus em novembro 25, 2009 12:54 AM

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