« Putz | Entrada | Não importa se foi comigo »

novembro 05, 2009

De um newsletter que eu participo

Ah, que maravilha que o GG escreveu, e a Maiara, e o Paulom. Porque fiquei conhecendo o blog dessas duas maravilhas, Marjorie Rodrigues e Mary W., porque fiquei achando a história mais interessante e mais importante do que de primeira, e porque deu vontade de falar com todos vocês de novo.

Primeiro, apesar da precisão da análise dessa Mary W., acho que ela errou dizendo que a Uniban foi feita pra formar um público crítico. Isso é o que a gente queria que fosse, mas acontece que é uma instituição privada e além disso é uma instituição de ensino superior privada, o que, desde o Ministro Paulo Renato, da Educação, do FHC, significa que ela não serve para formar um público crítico, mas pra fazer o que quer que o dono dela decida que ela deve fazer. E, no caso, todo mundo sabe que a Uniban foi criada pra lavar dinheiro do jogo do bicho.

Então é claro que é inútil discutir o caráter de qualquer pessoa envolvida diretamente na história, porque, como disse a Mary W., trata-se de uma massa acrítica, o resultado da máquina de moer carne e lavar dinheiro. Não é a liderança momentânea, que põe fogo na massa, o que importa. Em certo sentido, o líder também faz parte da massa (não, não vale nem um centavo a mais). Eles fizeram o que estavam programados pra fazer. Eu não vi o vídeo, não sou psicólogo e não trabalho com material pornográfico (não falo da saia, evidentemente, mas é uma lista pública e há aqui os que não sabem que também não sou irônico), mas é óbvio que nada saiu dos conformes ali. Apenas a barbárie ficou explícita. Mas a barbárie já está instalada nesses lugares há muito tempo.

A comparação do GG é precisa também. O cara do metrô, na época a juíza Christine Santini (é preciso dar nome aos bois, essa é uma lista pública e ela uma autoridade, hoje desembargadora estadual), titular na Vara onde eu trabalhava, ela estava em Londres, e na volta comentou sem dó, tinha que ter atirado mesmo. Era a opinião dela, é claro que sendo juíza ela não precisa lidar com a habilidade de fazer decisões éticas ao calor do momento. Mas a polícia sim, e no entanto fracassaram. Porque viviam na barbárie, naquela época. A polícia inglesa. Famosa mundialmente por tolerar xingos e respeitar as liberdades individuais. Não é à toa, as liberdades individuais foram inventadas na Inglaterra. Se eles não bancarem isso, o mundo acaba. Nesse sentido, é bem verdade o que disse. Acabou mesmo. E na Uniban é a mesma coisa. Fracassaram, todos eles, porque já viviam a barbárie. Tantos alunos, então, dizendo que isso manchou o nome da universidade. Efetivamente, eu teria trancado a matrícula no dia seguinte. But then again, já não teria me matriculado ali in the first place. Não, essa preocupação deles me lembra os nazistas escondendo seu passado. Me lembra o Brad Pitt marcando uma suástica na testa dos nazistas com a ponta da faca.

Todo mundo sabe que eu não gostava da São Francisco. Que eu me envergonhei mais de uma vez por estudar lá. Mas, embora ali também seja, por outros motivos, uma máquina de moer gente, a barbárie não estava lá instalada. É verdade que era uma sombra ameaçadora, mas não estava lá instalada. A existência da Academia de Letras, e mesmo desta lista, é uma prova disso.

Mas na Uniban a barbárie está instalada, e infelizmente não há resposta pronta pra fazer um lugar deixar de abrigar a barbárie. O máximo que podemos fazer, isto é, não estou falando de revolução, é marcar com ferro. Pra não esquecer. Porque não devemos esquecer. Se estes são os nossos universitários, são um pouco de nós. Se isso acontece na nossa cidade, no nosso país, com pessoas com quem convivemos, mais ou menos bem, que encontramos no cinema, no shopping, bem perto, que podemos contratar ou que podem nos contratar ou com quem podemos nos associar pra trabalhar juntos, ou que podemos encontrar num estádio de futebol ou num banco de delegacia, então estamos um pouco próximos da barbárie.

Mais perto do que gostaríamos. Isso é o que eu acho que o GG queria dizer, que estava faltando nessa história.


PS.: agora relendo, quero esclarecer dois pontos: não quis dizer marcar com ferro como se marca o gado, mas marcar com ferro como se dá nome aos bois. E também não quis dizer perto, como querendo dizer, no banco do lado. Quis dizer, no nosso próprio banco.

Publicado pelo homelupus em novembro 5, 2009 12:28 AM

Comentários

"e o caso uniban é realmente um caleidoscópio de questões desse tempo caduco em que vivemos, cheio de entulho, em que a respiração de tudo o que se conquistou no século xx fica difícil, ofegante."

assim eu disse, na certeza de fazer o mal.

beijinho, cavalheiro que se importa. colei seu texto no meu mural.

mai

******
Beijo, Mai, que o protesto tenha ecos.

Glosado por: maiara em novembro 5, 2009 06:51 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pode comentar aqui se quiser
(será preciso rodar um javascript; se não souber
o que é um javascript, já deve estar rodando ,-)


(a não ser que vc costume conversar com estranhos na rua)


(pode usar HTML, por exemplo: <em>texto_em_itálico</em> ou <br /> [faz quebra de linha])