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outubro 26, 2009

Todesfuge

Justificativa:
eu não sei muito de alemão, e não saber latim também não ajuda. Mas existem muitas traduções deste poema para consultar (ver abaixo) de modo que achei que podia tentar apresentar minha própria versão. Eu sentia das traduções existentes um tom errado, embora em outros aspectos bem feitas. Também quis apresentar minha própria versão porque eu tenho, de qualquer maneira, uma leitura aprofundada do tema, como também da forma. Além daquele poema (Não é nada demais), todo o sexto capítulo, que ainda não terminei, do meu livro, é em cima da forma fuga. Espero que essa versão possa somar-se àquelas existentes, para que de um modo geral possamos ter uma melhor aproximação desse poema, que é, sem dúvida, um dos mais importantes do século passado.

FUGA À MORTE

Paul Celan (1948)

Leite negro da alvorada nós o tragamos de tarde

nós o tragamos ao meio-dia e de manhã nós tragamos de noite

e tragamos e tragamos

nós cavamos uma tumba nos ares lá não se deita espremido

Na casa mora um homem que brinca com as serpentes que escreve

que escreve quando está escuro para a Alemanha teu cabelo doirado Margarete

ele escreve isso e sai à porta e brilham as estrelas ele apita aqui venham meus cãezinhos

ele apita já em fila venham meus judeuzinhos para cavar uma tumba no chão

ele nos ordena já tocai para a dança


Leite negro da alvorada nós te tragamos de noite

nós te tragamos de manhã e meio-dia te tragamos de tarde

e tragamos e tragamos

Na casa mora um homem que brinca com as serpentes que escreve

que escreve quando está escuro para a Alemanha teu cabelo doirado Margarete

Teu cabelo de cinzas Sulamita nós cavamos uma tumba no ar lá não se deita espremido


Ele esbraveja espetem fundo no solo vocês uns vocês outros cantem e toquem

ele agarra o ferro na cintura ele gira seus olhos são azuis

espetem fundo as pás vocês uns vocês outros tocai para a dança ainda


Leite negro da alvorada nós te tragamos de noite

nós te tragamos meio-dia e de manhã te tragamos de tarde

e tragamos e tragamos

na casa mora um homem teu cabelo doirado Margarete

teu cabelo de cinzas Sulamita ele brinca com as serpentes

Ele esbraveja toquem mais suave a Morte que a Morte é um mestre na Alemanha

ele esbraveja golpeiem mais grave os violinos daí subam no ar como fumaça

daí vocês têm uma tumba nas nuvens lá não se deita espremido


Leite negro da alvorada nós te tragamos de noite

nós te tragamos meio-dia a Morte é um mestre na Alemanha

nós te tragamos de tardinha e manhãs nós tragamos e tragamos

a Morte é mestre na Alemanha seu olho é azul

e te atinge com bala de chumbo te atinge e é só

na casa mora um homem teu cabelo doirado Margarete

ele incita seus cães pra cima de nós nos presenteia uma tumba nos ares

ele brinca com as serpentes e sonha a Morte é um mestre na Alemanha


Margarete teu cabelo doirado

Sulamita teu cabelo de cinzas


(trad. Rafael Rocha Daud)

Outras traduções para consulta, algumas com soluções bastante interessantes, e os valores que tentei contrabandear para a minha tradução:

Fuga da morte -- por Renato Suttana - a melhor solução para o refrão
Fuga da morte -- por Modesto Carone - preserva a oralidade da sintaxe original
Fuga sobre a morte -- por Claudia Cavalcanti - a mais precisa semanticamente
Fuga da morte -- por Ricardo Domeneck - com um estudo crítico sobre a tradução
Deathfugue -- por John Felstiner - assim fica mais fácil, mas o tom ainda sofre

E o poema original:
Todesfuge -- Paul Celan
A leitura em alemão pelo próprio poeta

Publicado pelo homelupus em outubro 26, 2009 06:02 PM

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