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outubro 22, 2009
Perco o amigo...
...mas não perco a teoria:
a poesia depende, assim, de três coisas, todas três difíceis, que são:
"Manter-se fiel à sua própria verdade"
Claro que as haspas são ezemplificativas da minha própria sabiduria. (grifo nosso)
Difíceis, diremos, em três diferentes níveis.
Primeiro, é preciso manter-se fiel. Independente de a que seja, não tem sido fácil, nos tempos dos amores fluidos, do progresso e da obsolescência programada (Não são três nomes da mesma coisa? São.), não dizer, como eu naquele maravilhoso poema que ainda não publiquei: "lealdade é para os cães, como se diz" (sic).
Segundo, bastando que o desinfeliz seja capaz de se manter fiel ao seu cachorro, não é obrigatório que saiba se manter fiel à sua verdade. Isso é algo muito diverso, como é diversa a verdade do homem e pode ser, inclusive, seu cachorro. Aliás a Virginia Woolf escreveu sobre o cachorro dela e esse livro vende-se em loja de conveniência de posto de gasolina, caso alguém esteja interessado. Chama-se Flush, mas o cachorro da capa é a Lassie. Aliás não sei se o cachorro era dela de verdade. O Paul Auster também, escreveu o Timbuktu, que é pra onde vai o seu cachorro, embora esse, eu sei, não era o cachorro dele, mas do seu personagem. Aliás não é o cachorro quem vai, é o dono, e não é Timbuktu não, é só o nome que o cachorro dá pra esse além do homem. Tudo muito humano, portanto.
Terceiro (porque eu ia falar mais alguma coisa sobre a verdade, mas vamos ficar com o cachorro, por essa semana), não basta que ele seja fiel a alguma coisa, e que essa coisa seja a sua verdade, o que por si já mostra-se suficientemente complicado, e material suficiente para fazer um poeta, porque não tem nada mais arisco que a verdade pra gente querer se manter fiel. Aliás, explicou-me um amigo meu, a quem a própria verdade confessou no ouvido, ela é a primeira a afirmar: "Eu sou uma puta". Mentira, a puta se compra com dinheiro, a frase original dizia "vadia". É que me pareceu uma tradução da Companhia das Letras, então eu preferi consertar à revelia. Não adiantou, o mundo é à revelia.
Mas...
eu ia dizendo que é preciso que essa verdade seja relevante. É como o que o Cortázar (desculpem, escapou, esse eu li mesmo) dizia a respeito do conto: é preciso haver intensidade. Porque a triste verdade é que a maior parte de nós tem, a maior parte do tempo, só coisas medianas pra dizer. E por mais que o façamos com arte (já dizia que bastava ser fiel à sua verdade para ser um poeta) pode muito bem ser que essa arte não interesse a ninguém. E não que estejam todos mais interessados em jogar GameBoy ou World of Goo, é que é bem provável que não interesse mesmo a ninguém -- o que o jornal faz parecer, pela seleção que faz da Bruna Beber e de um tal Ramon Mello ao lado das suas resenhas, se aplicar a eles --. E embora seja chique citar Caymmi -- desculpem, estou me perdendo, mas não estou mesmo aqui pra fazer amigos -- é óbvio que o jornal não vai publicar de preferência aqueles poemas que têm, obviamente, relevância poética. Isso equivaleria a considerar que a poesia...
Não, eu já tinha me perdido.
A começar pelo fato de que não é verdade que a maior parte de nós tem a maior parte do tempo só coisas medianas pra dizer. É verdade que o fazemos, mas isso é pra descansar a cabeça, não por falta do que dizer. Eu hei de testemunhar o quanto o mais insano dos seres é capaz das maiores verdades, contanto que lhes perguntem... e que se sintam dispostos a falar. Aliás, pra não dizer que falam mesmo sem querer...
Além disso, é falsa essa expressão: relevância poética. Usei ela pra rimar, mas a verdade é que a relevância não precisa ser poética. Tem coisas demais relevantes, e a poesia surge de serem relevantes, e poderem ser ditas de maneira insuspeitada.
Assim é evidente, isso sim, que um cachorro e Caymmi no falante são pura matéria de poesia. Porque isso não diz de quem acaricia o cachorro, não diz do que rola na sala enquanto se ouve Caymmi. E isso, que é insuspeitado, é que é a verdade, e sendo relevante, torna-se suspeita.
Talvez eu não tenha perdido o amigo, afinal. Segredos não são coisas que se guardem a sós.
Publicado pelo homelupus em outubro 22, 2009 01:01 AM
Comentários
é estranho, lembrava de ter comentado aqui, mas acho que sonhei, os dias andam muito iguais. está lindo o post, era isso que ia te dizer, há uns momentos perdidos aí no meio, mas exatamente esse senso de falta de rumo que estabelece um rumo, algo assim. ah, sim, o ramon é um cara legal. o que mais? que há duas engrenagens com encaixes infitos entre si - tua própria verdade e ser fiel a ela - a própria verdade acaba se alterando por indefinições do mundo. e muita gente não possui uma verdade própria, não é um defeito, embora seja fato. suspeito ainda que quanto menos verdade própria alguém guarda no coração, mais diz que a possui. acho que é mais ou menos isso. o post está lindo e isso me faz bem. um beijo
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Um beijo, linda. Vc tem razão, pra variar. Agora dá uma olhada na tradução, sim? Olhei no dicionário, e a definição de alvorada é, precisamente, crepúsculo da manhã. Pra mim, aurora soa muito lírico pro poema, e madrugada, embora bom, desvia um pouco o sentido. Continuo aceitando sugestões, no entanto.
Glosado por: ana rüsche em outubro 23, 2009 08:04 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.