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outubro 23, 2009

Os que ouvem com a garganta

Fomos ontem à Sala São Paulo ver um pianista russo chamado Arcadi Volodos.
O programa parecia muito bom: Schriabin, Ravel, um moço espanhol que eu esqueci o nome agora e Liszt. Claro que, ao entrar naquele grande edifício, nos lembramos que, embora talvez a maioria vá mesmo pela música, aqueles que vão pelo status dão o tom e o ar na entrada. Quase nos arrependemos, mas então: Schriabin! e seguimos. A sopinha cai bem, embora ontem eu a tenha dispensado; faltando lugar para sentar, ficamos perto de uma porta, e de repente o cheiro que vem de fora nos faz lembrar o quanto aqueles, que estão ali pelo status, estão mal informados. O status é outro, meus queridos. O status é outro. Não vou dizer que fazemos questão de parar na rua, dizendo que mais vale a companhia dos drogados e mendigos à dos carrões espaçosos e lentos; embora seja verdade. Ao menos entramos menos deslumbrados.
O que é uma coisa importante, porque assim que o silêncio da sala começa a se fazer ouvir, podemos ouvir com ele os pigarros e tosses, como se fosse impossível para alguns simplesmente manter a boca fechada. Como se escutassem com a garganta. Ou como se tivessem o queixo permanentemente colado ao peito.

Entra então o músico, um gorducho simpático, que faz uma grande deferência, e senta-se numa cadeira de escritório. Já vi viradores de página que faziam questão de banquinhos de piano estofados. Ele parece ter requerido explicitamente a cadeira com encosto. O engraçado é que, numa sala, uma cadeira de escritório pareceria o mais formal dos móveis, mas no meio da moderna e bela Sala São Paulo, era a coisa mais informal possível, muito mais que as nossas calças jeans e olheiras semanais.

O que ele fez sobre aquele piano é algo difícil de descrever, mas me ocorreram algumas imagens. Primeiro, seus legatos soavam como se o teclado fosse feito de água, e soasse ao toque dos próprios dedos. Ninguém suspeitaria que existe dentro daquela caixa preta um sistema de martelos e cordas. O gorducho corria aquelas teclas não como se tocasse uma partitura, mas como se ouvisse uma música distante e, totalmente tomado pela melodia, sacudisse os braços no ar tentando acompanhá-la. Ele efetivamente parecia mais ouvir do que tocar, mas não o tempo todo. Em boa parte do tempo, parecia resolver tomar parte na composição: improvisava. Não de verdade, tenho certeza que as notas pertenciam à partitura. Embora ela não estivesse presente -- já viram a quantidade de concertistas que mantém a partitura à frente? Mas ele parecia não se dar conta, e tocava como se tivesse a intenção de nos fazer ver o que sentia, e nada mais. Quando se dava conta de que estávamos ali: poderia ser que houvesse convidado os amigos mais íntimos para um jantar, e enquanto esperavam a sobremesa, decidisse sentar-se, com o estômago cheio, pare dedilhar algumas coisinhas. O caso é que essas coisinhas era tão russas como ele -- Schriabin -- e vibravam de uma tal maneira que, tivesse ele mesmo terminado um jantar, fariam-no girar sobre si mesmo dentro. Mas não, Arcadi quase não se mexia, sobre a cadeira de encosto, seus braços se movendo agora como se regesse a própria música, e não víamos os músicos que a executavam. Talvez fossem pequenos homenzinhos sobre os seus dedos, escondidos sobre o teclado. Ele deitava a cabeça pra trás, esse homem que quase não tem pescoço, e ouvia com os dedos, com a língua, com os ouvidos os menores que já se viu.

Depois de um tempo, durante o qual passados do fff para o pianíssimo, ele parecia de repente se lembrar de que havia uma partitura a seguir, e voltava concentrado. Em certos momentos porém, interrompia a execução -- pausas curtas, talvez pouco mais que semínimas, mas que equivaliam a um quase intervalo -- olhava para o alto como se de repente houvesse se distraído no assunto, e buscasse retomar o fio da meada, até que voltava, como que inspirado por uma ideia nova que gostaria de experimentar.
Ficávamos pasmos de que aquele improviso constante, aquele dedilhar que lembrava um pouco talvez Steve Ray Vaughan ou algo mais tradicional, soava tão incrivelmente harmônico. Quando ele não olhava as teclas, e parecia voltar os olhos pra dentro, não atrás das grandes profundezas, mas do sentimento mais intenso, mais veraz, que efetivamente se expressava na sua sobrancelha e queixo, não podíamos deixar de nos surpreender que voltasse, de lá, nada de sons desconexos, nada confuso, mas um som brilhante, vivo, e era impossível não desconfiar de algum truque: talvez aquele piano tenha sido construído de tal forma que não possa emitir sons dissonantes.

Ele tocou, naquela ordem, e com a mesma clareza e vivacidade, todo o repertório. Ao final, foi simplesmente ovacionado. Voltou, e como não parecia estar cansado -- estivera, a final de contas, divertindo-se ao piano, gracejando com seu estado de humor; é quase uma abstração dizer que tocou, e que tratava-se de um repertório --, sentou-se novamente e, como que para acalmar a todos, antes do fim da noite, após ter quase quebrado o piano ao final da fantasia quasi sonata de Liszt como se fôra um guitarrista em êxtase, tocou uma canção bellísima, tão suave e doce que era preciso abraçar alguém e rir baixinho. Em seguida levantamos e, saídos da sala, voltamos para a soleira para um segundo bis, tão generoso estava aquele russo, um pequeno estudo que não pude identificar, e ainda pisando fora do edifício ouvíamos os assobios, os urros, as palmas.

PS.: já vi, é Albéniz, o espanhol, La Vega é uma peça encantadora, recomendo.

Publicado pelo homelupus em outubro 23, 2009 01:01 AM

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