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abril 11, 2009

Pequenas iluminações IV

Existe uma discussão -- há diversos círculos onde se debatem questões relativas à literatura, e eu não falo de todos eles, mas somente daqueles em que me inscrevo -- a respeito de o autor dever ter ou não controle completo sobre a sua criatura.

Segundo as mais entendidas opiniões -- novamente a reserva se aplica -- é preciso que haja controle. A razão, se devo me aventurar um pouco além do explicado, é que a falta de controle denota falta de comprometimento do autor com sua obra. A escrita automática, o vômito adolescente (aquele que precede o escrito, não o que o sucede, que é mesmo de outra ordem), e todo tipo de escrita sem rascunho, sem rasura -- para ser ao mesmo tempo mais genérico e mais preciso -- denotam falta de comprometimento. Qualquer coisa lhes é suficiente, e a boa literatura não se basta com tão pouco.

Afinal, por que alguém iria ler um mesmo texto mais de uma vez, se nem mesmo o autor chegou a ler-lhe sequer uma? Pois são passos diferentes, escrever e ler.

Isso que queria dizer o Milton Hatoum, referindo-se à minha pobre geração, mas com sua típica grosseria, foi incapaz de pôr em linhas claras.

Muito para além daquele amazonense, no entanto, descobrimos um problema de outra monta: como espera escrever um autor um texto sublime, sem ser, ele mesmo, sublime? Se terá controle sobre sua própria criação, deverá necessariamente estar acima dela. E que escritor pretenderia escrever algo tão chão?

A não ser, é claro, que ainda creia na arrogante narrativa realista, que o mundo seja hegelianamente apreensível, e vocês veem já pela minha incapacidade de manter o mesmo tom o quanto respeito, o quanto admiro essa inocência.

Não, é tanto pior aquele que, sendo bom, e crendo agir bem, faz o mal, e em termos de literatura, em termos de ética literária, pra que fique claro que isso ultrapassa em muito uma estética, tal arrogância é inadmissível. Isso tudo no que toca ao presente assunto.

Then it hit me. Ao propor-me escrever sobre as pequenas iluminações, projetei-me obter, ou lembrar de uma ao menos (ou ao mais) a cada semana, que é a taxa de atualização mínima de um blog razoavelmente decente -- círculo no qual este aqui ainda pretende estar inscrito, apesar dos pesares.

Ocorre que isso é mesmo controle. Então como operar esse problema? Vamos resumi-lo, para retomá-lo: o controle é necessário, é preciso saber o que se escreve, não escrever com menos cuidado com que se pretende ser lido. Por outro lado, é preciso ser sublime, e a não ser que sejamos bastante arrogantes, no sentido realista -- ainda continuo bastate arrogante, em outro sentido -- seremos sempre chãos. Seria preciso perder mesmo o controle, permitir que a obra se elevasse acima de seu criador, e seria mesmo essa a única forma de não pecar contra o verdadeiro Criador, para falar teologicamente -- o que não é de todo inadequando aqui --.

É então que eu recorro à psicanálise, como método, e à etimologia, como fonte, para chegar ao seguinte raciocínio.

A palavra controle não é usada sempre no mesmo sentido. Ora refere-se àquilo sobre o que exercemos domínio, sobre o que temos poder de determinação, e que é o uso mais corrente, porém refere-se ora àquilo sobre o que pomos a vista, sobre o que temos vigilância, àquilo que não nos escapa. Assim na expressão tenho tudo sob controle.

O escrito tem uma alma própria, e como criatura, pode se tornar muitas vezes independente, rebelde mesmo, e voltar-se contra seu criador. Mas não pode ficar à sua revelia. Daí a fala sensacional do Riobaldo, no Grande Sertão, e que equivale aos protestos de Ivan Karamázov contra o diabo: "O mundo é à revelia!"

É preciso portanto que fique sob o seu olhar vigilante. O escritor precisa mesmo saber o que escreve, deve ser seu primeiro leitor, deve cuidar da sua obra, esse o sentido que controle aqui deve ter. Mas como um pai, deve reconhecer quando o filho adquire asas, e talvez deva mesmo permitir, em certas circunstâncias, que ele voe perto demais do sol.

Isso tudo no que toca a este assunto.

Publicado pelo homelupus em abril 11, 2009 04:26 PM

Comentários

oi rafa,
estou emocionada com seu blog. é bem bonito... fiquei pensando no quanto (...). ah, depois te falo pessoalmente.

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Brigado, Karen, muito gentil. Beijo./

Glosado por: karen em maio 1, 2009 09:48 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pequenas iluminações iluminam pequenas iluminações!
Obrigada...

ps (será que chegou no 200? ;-))

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Quem diria, hein! Acho que agora não tem escape...
Beijos./

Glosado por: cami em maio 12, 2009 01:06 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pode comentar aqui se quiser
(será preciso rodar um javascript; se não souber
o que é um javascript, já deve estar rodando ,-)


(a não ser que vc costume conversar com estranhos na rua)


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