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março 17, 2009

Sem título VII

Dizem um monte de coisas por aí, e modernamente é natural que se pergunte: quem diz?
Parece que é chique desconfiar do senso comum. Aliás, em inglês bom-senso e senso comum são a mesma palavra. Se as línguas fossem um pouco mais planas do que são, isso seria uma acusação extremamente grave, do ponto de vista de qualquer um que escreva a partir da segunda metade do século XX.
Mas eu só menciono a segunda metade do século XX porque essa pra mim é uma referência essencial, mas também eu não resolvi a questão.
Quem diz é um problema o tempo todo, e se vc não é a Ana Rüsche vai encontrar dificuldades em resolver esse problema. Vcs pensam que eu desisti do meu livro, mas, como eu disse (ninguém nunca acredita, mas eu disse), simplesmente mudei de estratégia.
O que não apresenta nada de novo. Já os chineses antigos sugeriam que, quando vc se acha incapaz de resolver um problema, deixe ele de lado e resolva outro, que vc seja capaz. Mais ou menos como procurar uma coisa que vc perdeu onde tem luz, mesmo que vc tenha perdido em outro lugar.
O caso é que funciona, e por isso eu voltei a trabalhar no terceiro capítulo, ao invés do sexto.
E levei pra Piolheira.
E as pessoas, generosamente, criticaram, tentando estabelecer qual era o problema do trecho que eu levei. E é claro que o problema é sempre esse: quem diz.
Como eu venho tentando dizer.
Mas se vc não é explícito, as pessoas se confundem.
Quando eu digo as pessoas eu me incluo nisso aí, é claro, nunca fui de ser irônico. Sarcasmo, embora mais feio, é mais honesto. Eu nunca me importei de sujar as mãos.
Then it hit me.
É vc quem diz. Vc. O coro funcionava de um jeito, no teatro grego, e eu sempre me perguntei onde foi parar o coro na literatura moderna. Tem um monte de anotações nos meus cadernos sobre o coro. Eu nunca sabia o que fazer com isso. Não é possível que um elemento tão essencial quanto o coro tenha simplesmente desaparecido. O fato de que hoje mal entendamos a função dele corrobora esse pensamento: se não damos atenção ao coro, é porque ele tem uma importância fundamental. E se é assim, não pode sumir, tem que ter se transformado em alguma coisa, tem que ter sofrido um deslocamento.
Ora o leitor hoje é parte do texto. Ele está lá, ele se impõe o tempo todo. Por isso não há coro.
É claro que eu não estou formalizando isso direito, isso não é um sistema, estou apenas lançando uma breve intuição pós-piolheira. Claro que isso não tira seu valor, só exige que se pense um pouco mais sobre o assunto pra torná-lo prático.
Mas o que eu sugiro, nesse caso, pra mim mesmo, é fazer o seguinte: explicitar que o leitor se impõe ao texto. O texto não existe por si, dizia o Alan outro dia, mas só a partir da sua leitura. Ora, isso significa que o leitor se impõe ao texto.
Esse, finalmente (levei oito anos, mas consegui), é o problema com a expressão "as pessoas". Não é somente uma diferença entre a ironia e o sarcasmo. É que em "as pessoas" parece que sou eu quem está querendo se impor. E daí, novamente, a questão: quem sou eu, que falo?
Mas não, não se trata das pessoas, nem de mim. Se trata de vc. Vc é o cara que quer se impor, e dar sentido ao que eu tou falando.
Vc que fica puto da vida se parece que o que digo não tem sentido, e para de ler. E vc que acha que eu falei uma coisa genial, quando só estava dizendo uma coisa que se diz por aí.
Vc é que vai me perguntar quem diz. E vc que vai ficar surpreso, quando eu responder, como se não tivesse amadurecido nunca: é vc.

Publicado pelo homelupus em março 17, 2009 12:55 AM

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