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março 10, 2009

Sem título IIII

Achei muito chique escrever o algarismo romano errado, igual nos relógios.
Aliás acho muita coisa chique. Acho chique o cara parar o ônibus no meio da quadra pra você não ter que correr até o ponto. Tem gente que xinga quando ele não faz isso, mas é raro, e de qualquer maneira não é nada chique. Xingar não é chique, aliás, é barraqueiro. Eu não sou barraqueiro, eu sou chique.

Não é chique sentar no café do Instituto Goethe e pegar uma revista e fingir que tá lendo. Eu fiz isso na segunda, enquanto comia um salsichão (com um nome difícil de decorar) e uma cerveja alemã (isso é fácil decorar, claro, Champ, da Erdinger). E ainda tive que pagar com cartão de débito. Definitivamente, não chique.

Mas hoje eu fui trabalhar de bermuda, e isso é chique. Aliás, muito chique, com esse calor.

E descobri que, juntas, minhas canetas valem mais de seiscentos reais. Isso é chique? Chique é lembrar que eu já pensei em vender uma delas, na época que eu andava mais sem grana, e não fiz. Quer dizer, as duas coisas são chiques, vender coisas valiosas porque não temos dinheiro, e não ter feito, e agora ainda ter coisas valiosas.

É chique ter blogs em três línguas diferentes no seu reader, mas só porque são verdadeiramente bem escritos, e porque você conhece verdadeiramente seus escritores. Eu já falei sobre isso outro dia, mas ninguém não sabe, porque isso é blog e se vc não é explícito ninguém se lembra. Mas não tem problema.

Também é chique beber cachaça de Ubatuba, no copo de Lisboa, enquanto digita no seu computador de Chicago ou Michigan ou coisa que o valha. Mas globalização não é chique.

Chique é quando os seus amigos de 17 anos te convidam pra ir ao Playcenter, e vc diz, que legal, eu nunca fui no Playcenter. Daí o Zelão vira pra você e diz: Dezessete anos e nunca foi no Playcenter? Isso é coisa de pobre. Acentuando cada sílaba e fazendo voz de locutor, que depois ele virou mesmo. Abraço pro Zelão.

Chique é vc conhecer uma poeta numa festa e ela dizer que sabe o seu signo, mesmo que ela não estivesse tentando dar pra vc. Aliás, se ela estivesse não seria chique, seria coisa de pobre.

Não é chique beber durante a semana, mesmo se for num copo de Lisboa. É coisa de pobre. A não ser se for vinho, e vc estiver acompanhado. Aí é chique, mas não pode ser muito e não pode ter segundas intenções, nem consequências. Beber pelas consequências é coisa de pobre. Beber tem que ser finalidade (por exemplo: nada me resta). Aí é chique.

É chique inventar apelidos pras pessoas, e não contar pra elas, nem pra ninguém. Não é coisa de escritor, é coisa de louco, mas ser louco também é chique. Aliás louco não, excêntrico. Louco quando vira chique é excêntrico. E mutatis mutandis.

Escrever em latim é chique, eu acho, mas só eu posso achar, OK?

Verter uma frase cujo original é francês para o inglês e achar o resultado melhor do que o original é muito chique. Mas isso é porque eu não gosto de francês. Paciência, porque eu teria muita facilidade em aprender. Não importa, o que vem da França me irrita (apesar da escola francesa de psicanálise) e é incivilizado. Em outras palavras, francês não é chique. Inglês bem falado é. Como português bem falado. Tão mais chique porque raro. É assim.

Importar vocabulários de outras línguas é chique. Mas importar a sintaxe é coisa de pobre.

Ser poeta e ter erros de português é chique. Ser poeta e não conseguir conversar vivamente é coisa de pobre. Não saber ler poemas em voz alta também, mas declamar de memória muito rápido, como quem quer mostrar que decorou a tabuada, é super coisa de pobre. Melhor seria declamar a tabuada.

Saber ditados populares é chique. Citar ditados populares fora de hora é muito chique. Citar ditados populares confundindo partes é um pouco chique. Citar ditados populares achando que é hora, mas não é, é muito coisa de pobre. É muito chique citar ditados populares achando que é hora, mas parece que não é, mas depois percebe-se que é, é muito muito chique, mas não pode prestar atenção nisso, senão vira coisa de pobre de novo. Essa é uma seara muito sutil.

Fazer posts de blog longos é coisa de pobre, principalmente se eles obedecem a um sistema acumulativo ou a uma enumeração. Saber a hora de parar é chique.

Não saber a hora de parar é coisa de pobre. Mas parar com frase de efeito, que tenta unificar o sentido da enumeração, mas na verdade não serve pra nada, é muito coisa de pobre. Dá até vergonha de ter lido.

Prometo que não vou fazer isso, então vou ter que seguir mais adiante.

Escrever no blog todo dia é chique. Escrever quase nunca não é chique, nem coisa de pobre. Isso equivale a dizer que não fede nem cheira.

Escrever no blog sem ter o que dizer é coisa de pobre. Isso equivale a ter o que dizer mas evitar o assunto.

Escrever sem vontade de escrever não é chique nem coisa de pobre, mas me lembra o Flaubert, que não fazia isso e era chique cem por cento do tempo. Não sei por que me lembra o Flaubert, acho que se eu fosse escrever como ele ficaria sem vontade de escrever. Mas só porque ele já escreveu, senão seria preciso inventá-lo.

Falar de coisas que vc odia como se as adorasse é coisa de pobre, mas é muito mais coisa de pobre não deixar as pessoas saberem se você está fazendo isso ou não.

Esse post é totalmente coisa de pobre. Mas eu sou chique, o que venho tentando dizer.

Publicado pelo homelupus em março 10, 2009 11:40 PM

Comentários

meu twitter após o almoço: "Latest: achei chique a postagem do Daud de hoje. mas aviso que não sou nada chique, aliás, ao contrário, sou amiga" less than 5 seconds ago from web"

hehe


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Chique sou eu, de ter vc de amiga :-) Mas falando sério, fiquei mesmo pensando que vc ia achar um saco esse post, nem sei por quê. A gente não conhece ninguém, mesmo. Beijo

Glosado por: ana rüsche em março 11, 2009 12:45 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

E eu que me achava chique, descobri que sou muito pobre, principalmente por ter (um dia) me julgado chique.

Gostei do post.

Beijos saudosos (eu acho isso muito chique!),
Carol.


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Vc, Carol, é chique-no-matter-what. Beijo

Glosado por: Carol Marossi em março 13, 2009 11:16 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Ai, ai, ai Daud!

Demais.

Voce fez esse post pra mim, é?

Um dia faço a minha edição do seu post.

beijos


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Linda, espero te ver hoje hein!
Beijos./

Glosado por: Manu em março 16, 2009 01:16 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Muito bom!!! Risos.
Ouço você falando: -Isso é coisa de pobre!!

E como todo mundo se acha chique, me dou o direito de me achar pobre. Acho que é o que eu sou mesmo. P-O-B-R-E!

[comentário auto-censurado]

Sei, não precisa publicar. Mas eu tinha que falar. Vc sabe como eu sou, né?
Sempre falo o que penso. Quer coisa mais de pobre do que isso???

Beijo.

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Não, bonitinha, não é coisa de pobre. Mas vc errou, lalalá, e não conto, lalalá, vai ter que adivinhar.

Glosado por: dwkwcw em março 17, 2009 04:53 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pode comentar aqui se quiser
(será preciso rodar um javascript; se não souber
o que é um javascript, já deve estar rodando ,-)


(a não ser que vc costume conversar com estranhos na rua)


(pode usar HTML, por exemplo: <em>texto_em_itálico</em> ou <br /> [faz quebra de linha])