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março 08, 2009
Sem título III
Uma vez uma amiga falou que alguns blogs se aproveitavam do formato blog, e exploravam o formato, e outros não. Perguntei pra ela se, por esse critério, o meu aproveitava. Ela disse que não.
Mas aproveita sim, claro que aproveita. Só não percebe quem não entende nada de blog. Você pensa que blog é só um monte de entrada uma atrás da outra, com data, como se fosse um diário de debutante, só que na internet? You can bet your ass it is, como diria a Kate Winslet.
O que é o formato do blog. Você escreve sobre o que quiser, a hora que quiser, e as suas escolhas falam sobre você. É isso. É isso e é só isso. E isso desde Montaigne. O Montaigne foi o precursor dos blogs, e quem não acredita, pode ler. É verdade. Tem coisa que só eu sei, e é um saco você saber as coisas sozinho. Você fica se sentindo que nem aquele cara do Soy Legenda, só que sem o Canek. É uma merda. Então eu escrevo blogue pra compartilhar as coisas que só eu sei. Não tou falando de opinião, já devo ter dito isso em algum lugar aqui, ou então foi em 2002, mas eu acho que dar opinião é uma coisa tão brega que não cabe em blog. Blog é diário de debutante, só que você pode escrever até quando for velhinho como o Saramago. Ou o Hatoum, o que mostra que você pode escrever sendo chato também, ou popular. Eu não sou popular, e sou legal, mas mesmo assim posso escrever, porque não é essa a questão. É diário de debutante. Que nem o Montaigne. Pascal não gostava, se mordia de inveja. Não acredita? Vai ler os Pensamentos. Algumas coisas eu falo não porque só eu sei, mas só eu lembro. Isso também conta.
Ninguém pensa que eu escrevo meu blog por um formato de arcos. Quando eu escrevo as Epístolas, quando eu coloco os Excertos, quando eu faço posts Sem título, isso deveria estar claro. Mas, pra mim, deveria estar claro desde sempre. Não importa, quem lê não precisa entender a forma. A forma é simples. Usar uma forma simples é difícil. É coisa que você só faz se tem muito colhão, ou é debutante. Porque debutantes têm colhão, é preciso.
OK, exagerei de novo. O Flávio tinha razão, eu sempre acabo exagerando. O Flávio foi com quem eu fui pra Buenos Aires, era o guitarrista da minha banda, é um amigo de longa data. Faz tempo que a gente não se vê. Ele não lê este blog.
O que o Flávio sabe sobre mim, o que eu sei dele? Nós tínhamos uma banda. Melina Bye-bye. Puta nome. Surgiu por acaso, como sempre. Nunca nos apresentamos. Este nome não está sob direito de uso, lamento. Meu sonho estava naquela banda, e eu estava iludido de achar que qualquer coisa que eu fizesse depois poderia preencher esse vazio. Volta, Jimmy. Nós precisamos de um baterista.
O que é você, que escreve num blog? Você é uma pessoa que escreve num blog. Você, naturalmente, vai se ver obrigado a refletir sobre o que é escrever num blog, como um contista é obrigado é refletir sobre a natureza do conto, como um tributarista precisa refletir sobre a natureza do tributo e das contribuições previdenciárias, mesmo que não sejam tributos, no fim das contas, porque estão reguladas pelas mesmas normas constitucionais.
Minha amiga supunha que não importa aquilo sobre o que se fala, mas sim o como se fala. Uma coisa meio pessoana, típica de quem tem um nome que significa ninguém, como diria o Wim Wenders.
Ela tava errada, tadinha, como tava errada sobre um monte de outras coisas. Eu ando meio bravo com ela, sabe, mas também faz tempo que não nos vemos. Infelizmente, menos tempo do que o Flávio.
Então agora eu sou o Jerry Seinfeld, e falo sobre o nada. Eu posso ser o Jerry Seinfeld, na medida em que ele é o cara que fala sobre o nada, e eu também. Assim, Jerry Seinfeld não é Jerry Seinfeld, é um codinome, e nessa medida eu sou esse cara. E não é pouca essa medida, você vê que eu começo a falar um pouco como ele. Mas não, já começo a falar como outra pessoa, que vocês não conhecem, porque ainda é inédito.
Um pouco inédito. Digamos, inédito como aqueles filmes que passavam no sbt com a marca: inédito na tv. O que já é alguma coisa, digamos.
Mas é preciso ainda saber: quem escreve, para quem escreve, como escreve. Quem: já respondi, meu nome tá no pé da página e também já o escrevi neste post, não vamos nos demorar nisso. Para quem. Esse é o mais importante, é claro, o freguês tem sempre a razão e o texto não existe até que seja lido. Temos estatísticas. As minhas são razoavelmente constantes. Coisa de 20% de variação diária, no máximo, média mensal constante. Quantitativamente, sei bem para quem escrevo. Sei nada. Sempre que vou no computador de um amigo, vejo se o meu blog tá nos favoritos, ou então digito o endereço no navegador e vejo se ele aparece pelo histórico dos recentes enquanto digito. Isso é meio raro, mas muitos amigos meus têm blog também, e acessam por lá, pelos links deles. Funciona. Eles são que escrevem meus textos, porque são quem leem, conforme a doutrina recente de Alan Mills, o primeiro poeta brasileiro nascido na Guatemala. Aliás, o blog dele tá com uma imagem nova de frente, ficou mais moderno, vocês deviam dar uma olhada. Como escreve. Coma esta resma. Coma esta resma. O melhor poema da década. Eu achava que era do Paulo Ferraz, agora já estou achando que é o meu. Claro que o dele é mais lido, já foi publicado enquanto o meu espera o resto do livro. Que será um audiobook, não porque as pessoas tenham preguiça de ler, mas porque -- que se foda, eu sei bem por que e quem quiser que se lembre duma razão. Eu escrevo como eu quiser a cada momento que eu quiser, dizem. O que é falso. É preciso manter uma relação entre o que se escreve e a forma como se escreve, falso. Não se esqueçam que isso é um blog. Desculpem, começo a abusar da forma, vocês sabem que isso é um blog, não é preciso fazer esse tipo de referência a toda hora. Se querem um blog cor-de-rosa, vão ler o da Ana Rüsche. Aqui, só osso. Aliás quando eu descobri que osso em espanhol é urso fiquei alucinado. Eu tava assistindo La Brujula Dorada, com a Nicole Kidman, e fiquei metade do filme esperando a Feiticeira. Mas eu estou sendo bonzinho de novo, é que é falar da Ana Rüsche e já fico mais doce, meu coração amolece. Mas não, eu sou bravo, bravo, de quem o sangue será alimento, quando eu morrer lutando, aqui não tem miserinha.
Você não escreve como quer, a forma já está dada, é um blog, é um diário de debutante, você escreve que nem debutante. Tá pensando o quê, quer moleza? Quer Rafinha Bastos, vai ter Rafinha Bastos! Não que ele seja debutante, só é muito fácil imitar o jeito dele falar.
Você imita. É o que eu tou tentando dizer. Você imita, você rouba, você copia, você pirateia e é isso que é escrever um blog. Pirate Coelho o meu rabo, você faz igualzinho fazia em 2001, quando nem imaginava o que seria um blog, mas já lia Paul Auster. Que é o Coelho fracassado. Quem mandou dar uma de cult? E por falar em Coelho, sabiam que o John Updike morreu em janeiro? Nem tive tempo de ler um livro dele enquanto era vivo, agora quando ler já não será um autor contemporâneo. Por lo menos é americano, que senão ia pegar mal na minha paróquia. E vou lá engolir uma cápsula de paracetamol.
Você só esqueceu de uma coisa Alan, ou talvez tenha mesmo pensado nisso, eu é que só agora me dou conta, é que seremos sempre, enquanto a língua for viva, ainda que não mais nós, autores inéditos, teremos sido autores inéditos em vida e seguiremos autores inéditos, talvez mesmo perambulemos à toa nas ruas perdidos quando formos mortos.
Também estaremos sozinhos no que toca à questão da relação sexual. Isso é uma coisa que não poderemos resolver, permaneceremos sozinhos. Há nessa questão um equívoco fundamental, que é achar que não estaremos sozinhos, e essa é a origem de todos os outros equívocos. Mas não, também poderemos nos convencer que permaneceremos sozinhos, e continuaremos nos equivocando. E haverá sempre quem ainda se equivoque, e ainda uma vez nos faça poetas inéditos. Pela primeira vez na televisão.
O problema é a chave, Alan, eu acho que o problema é a chave. Há os que não deliram, e os que deliram demais, mas a questão está em que o poeta precisa saber onde está a chave. Onde está o botão Power. Ele tem que conhecer intimamente esse negócio, ele tem que ser esse botão. E isso, definitivamente, não está no como se diz, me desculpe, eu tinha razão, não devia ter me perdido tanto assim. Está no quê se diz. Isso que não se ensina. Olha pra lá, não cá, filho. É porque desobedecemos que deliramos. Mas porque fomos mandados é que não enlouquecemos. Há uma dialética fina, e é bom que nenhuma peça esteja faltando. Porque se estiver, não poderemos tirá-la fora do lugar.
Não sei, Alan, mas eu acho que sinto mais saudades de você do que do Flávio. Mesmo você não sendo amigo de longa data. E também não é porque você lê meu blog. É que tem coisa que só você entende, mi buen Alan.
E, claro, tem coisa que só você não entende, o que torna a comunicação perfeitamente possível. Haveria um modo mais claro de falar?
Publicado pelo homelupus em março 8, 2009 12:12 PM
Comentários
I read you. Just so you know.
oh, and I am writing too. Will you read me?
we could both lighten up a bit, I suppose...
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Yes, honey, I know, and I've been reading you too. Actually I've been wondering when you were to write more.
Now I know. And it's good (e dessa vez quase não precisei do dicionário...).
Glosado por: nathalie em março 8, 2009 02:43 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.