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fevereiro 16, 2009
Poesia é cool
É, sim.
Mas hoje eu tenho a sensação viva de que foi arrancada de mim qualquer fibra poética que eu tenha tido algum dia. Por quê? Isso sempre pode ser um bom começo, mas a maior parte do tempo é só o estranhamento por algo que simplesmente não está no seu controle. Escrever bem não é um dom. Ah, não é mesmo. Aliás, se vc escreve é vc quem está entregando alguma coisa, e não recebendo. Não tem nada de místico ou religioso, é só mesmo a crueldade auto-imposta sabe-se lá por quê. É crueldade, mesmo. Senão, vejamos:
"Mostrá-lo-ei, igualmente, para vocês, no detalhe da experiência analítica, e com referências que lhes permitirão ficar atentos quando de sua passagem numa sessão de análise. [...] É claro que vocês não lidam o tempo todo com criadores, lidam porém com pessoas que tiveram algumas relações com o campo convencional, diria, da beleza. Vocês podem estar certos de que essas referências, à medida em que aparecem mais singularmente esporádicas, decisivas com respeito ao texto do discurso, são correlativas de alguma coisa que se presentifica nesse momento aí, e que é sempre do registro de uma pulsão destrutiva. É no momento em que vai aparecer manifestamente num sujeito, no agressivo com respeito a um dos termos fundamentais de sua constelação subjetiva, que ele tirará para vocês, segundo sua nacionalidade, tal citação da Bíblia, tal referência a um autor, clássico ou não, tal evocação musical." - Lacanzinho no livro 7 do seminário
Será também por isso a necessidade de falar sempre de pau e de boceta toda vez que se põe poesia no palco? É claro que a do Paulo escapou a isso, mas também não sou imune a ponto de dizer que não me apaixonei, ainda que por segundos -- eu sei bem como isso funciona -- pela mocinha da peça. As palavras eram da Alice Ruiz, do Roberto Piva, do Glauco Mattoso, além das do Paulo, conforme o caso, o que vimos tudo em seguida, surpresa da programação, que os pouco que conseguiram ingresso vimos.
Então vc tinha: atores jovens e bonitos, encenando sem-vergonhices da poesia paulistana, e na platéia em formato quasi-arena gente tão bonita quanto, e não só as carinhas poéticas de sempre, mas também muita gente que não conhecia poesia, ou conhecia como se deve conhecer: por ler, não por escrever. Me senti um contemporâneo de Baudelaire, impressionado com as impressões que os momentos sucessivos causavam nas carinhas inocentes, que obviamente já não eram tão inocentes quanto gostaríamos. Não estou falando de crianças, dessa vez.
Poesia é mais cool que cinema, é o que estou querendo dizer. Pode apostar que é. É mais cool que bar de jazz e é mais cool que rave eletrônica.
Mas ironicamente (sempre digo que não sou irônico, mas pouco posso em relação à vida) a mulher do outdoor continua mantendo sua autoridade intacta, salvo curtos e bravos momentos de lucidez poética.
Publicado pelo homelupus em fevereiro 16, 2009 10:11 AM