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dezembro 24, 2008
Sexto capítulo (terceiro excerto)
Eu sempre fui entre os inteligentes.
Eu nunca fui entre os bonitos, nunca fui entre os atletas, nunca fui entre os desqualificados; nem entre os ricos, nem entre os que davam festas legais, ou os que faziam coisas erradas e se divertiam horrores. Nem mesmo entre os que escreviam bem eu era, não existia essa categoria, e aproveitando que eu nem mesmo escrevia, foi assim que evitei a categoria dos desqualificados: fiquei entre os inteligentes. O que, devo dizer, para revolta de uns, e riso de outros, sempre foi um lugar meio solitário.
Se depois eu me tornei todas as outras coisas, e passei a ser entre todos aqueles outros, foi só pra provar aquilo que dizia, não lembro bem se Kierkegaard, ou Jean-Claude Van Damme, "se me rotulares, vais me rejeitar?". Dessa forma, eu continuava, afinal de contas, entre os inteligentes, mesmo que ainda um pouco sozinho.
No entanto, e felizmente, isso já não é uma posição de destaque. Cada vez me surpreendo mais com meus amigos e, na vaidade de não me crer mais burro, só posso concluir que são eles que estão mais inteligentes. Já não falo tanto, e escuto mais, e isso não é só uma questão de hábito profissional. É um pouco uma questão de bom-senso, também, ou timidez diante do que é superior.
Em nome dessa mesma timidez, da qual não faço uso exclusivo, e também não de modo mais justificado, me dizem que é inútil eu buscar auxílio dos outros nesse capítulo, que ninguém poderá jamais falar do que aparece em estado tão avançado, uma pesquisa tão séria etc.
Digo eu, secundando um outro, que um escritor não conta somente com seu espírito, mas com o espírito de seus amigos.
Tanto é verdade que embora aqui no blog não tenha havido sugestões, muitos vieram falar comigo e me ajudar de verdade. Realmente, embora eu esteja levando essa pesquisa muito a sério, aquilo que eu pretendo para o capítulo, aquilo que as pessoas imaginam que ele será, fica muito longe do que ele de fato está sendo, exatamente o nível de pobreza que vcs estão vendo aqui.
Assim, contra a falta de generosidade da minha parte, em escrever aqui tão pouco, ultimamente, e trabalhos tão embrionários, e além disso nenhum comentário sobre o que ando fazendo, produzindo, conhecendo, visitando (talvez um dos motivos de as visitas ao blog terem caído vertiginosamente?), espero sim generosidade da parte de quem me lê, e que comente, não para me elevar na categoria Os mais participados, sim para levar a sério essa proposta que é a minha: que estejamos efetivamente envolvidos numa produção.
É contra-corrente, falar em produção vs. consumo, justamente nesta época? Talvez eu seja menos contra-corrente, escancarando assim o plano, e pela transparência do propósito, abra espaço para a cooptação, que é sempre sutil, por parte do sistema que combato. Pouco me importa, quero sim terminar esse capítulo, já não posso adiá-lo mais, já não posso ser mais conivente comigo mesmo nesse ponto: é com facilidade que adiamos qualquer coisa, e assim como que garantimos amanhã. Se o capítulo vai ser tão foda quanto eu pretendo, não sei, mas só fazendo podemos descobrir.
Eu sei que entrar com trechos desconexos dificulta a participação das pessoas. Sei que gostariam, como eu, de ter o plano mais geral na cabeça, e assim poder ter mais segurança quanto ao solo em que pisam. Mas, ao contrário do meu personagem, conto com a imaginação delas, e que falem sem medo aquilo que lhes parece. Além disso, desse vício já padeço eu, e se elas podem ter um olhar mais ingênuo, sobre esse capítulo sobre o qual já me debruço há anos, o que não permite que lhe reste um tiquinho sequer de ingenuidade, nem mesmo na personagem da Amanda, que também cresceu, nesse tempo, e embora ainda pareça muito boba, tem já seus interesses, deveria eu tirar-lhes também isso? Puxa, eu não sou o único aqui que pode falar bobagem. Não é o que dizemos que define quem nós somos, principalmente se estamos dispostos a arriscar, e às vezes falar demais. Se, no entanto, não arriscamos, e não falamos nada, isso passa a definir a gente com muito mais força.
Segue, portanto, o novo trecho escolhido. Vai no post mesmo, e não no link, porque assim fica mais direto: em nome da ingenuidade. Além disso, ficamos com a referência pelo título, e não dependemos do link, o que poderia dificultar as coisas um pouco (Kqi, este blog é pior visualizado no Google Reader). Além disso, tentei deixar formatado assim como está no caderno; só os três pontinhos ao final indicam que o manuscrito continua.
Em algum ponto eu percebi que poderia conhecer, a despeito de certas promessas, que haviam sido feitas em total liberdade.
Não acho que exista uma coisa tal qual uma total liberdade. É preciso sempre libertar-se.
Em algum ponto eu achei que seria necessário estar livre de promessas para saber-se o que se quer. Porque nosso desejo também é uma prisão, trata-se de uma dialética delicada.
A liberdade é, obviamente, uma questão moral. Mas não o desejo. Ficamos, portanto, sem ter como resolver satisfatoriamente a questão.
Jesus nos salva, de fato. O que significa: podemos cair. Mas se não for esse nosso desejo? Se optarmos por outro caminho? Aí estaremos por conta própria.
Isso quer dizer que não podemos levar ninguém junto? (Será mesmo um caminho de puro desdém?)
-- Meus problemas? Você pensa que eu tenho grandes problemas? Pois você não sabe da missa a metade. Mas escute só uma coisa: é preciso muito orgulho para não estar à altura de um problema e ainda assim ser assomado por ele dessa maneira -- porque o mais fácil era esquecer. Mas nós ouvimos uma coisa e precisamos silenciar para ouvi-la decentemente; nós ouvimos uma coisa mas ouvimos em estéreo, e é preciso cuidado para não se enganar. Cuidado para não tornar ambíguo o que ouvimos. Porque o que ouvimos é sempre difícil, e perante o difícil é sempre possível trapacear. E se de alguma forma entendemos que as coisas se tornaram fáceis demais, ou que foram facilitadas, é porque estamos trapaceando. As coisas nunca são fáceis.
-- E por que não? Por que sempre o mais difícil?
-- Um eco, o que você tem ouvido. Quem sabe eles aí não vieram somente lhe avisar que outra pessoa já deu conta do serviço?
-- Mas isso é que não!
-- Por que sempre o mais difícil? Já não é a primeira vez; você disse que era trapaça, que era como se trapaceasse caso as coisas fossem facilitadas, se tornassem fáceis demais. Não pode ser assim e não vejo motivo para ser assim, como se se quisesse dificuldade, como se se pedisse pra ser tudo uma merda e ser sempre uma merda...
-- -- três questões lógicas -- -- ele exige dela a verdade
-- ser cobrado e perseguido como o criminoso tem a ver com sabermos demais --
-- Mas não; chega. Não quero mais ouvir mais um segundo. Você não vê? Tudo isso são regras, e eu estou cheia dessas regras. Só se fala em ser livre, e depois só se fala em regra. Minha mãe é que está certa.
-- Ela é quem disse isso?
-- É.
-- Então ela está muito certa.
-- Como assim?
-- Porque deus existe, tudo é possível.
-- Como assim?
-- Você quer ser livre, mas para onde corra, só vê restrições. Então imagina que, se ficar parada no lugar, sendo aquilo que você já está sendo, mesmo que já esteja sendo isso há muito tempo, de alguma forma vai se acostumar, e ter alguma liberdade.
-- Onde você quer chegar?
-- Você pensa que, aceitando as coisas como são, seja o caso de levá-las a sério, ou o contrário, seja o caso de satisfazer-se com elas, ou o contrário, terá de alguma forma paz, um ponto ao qual sempre retornar, e alguma realização. Mas isso é tecnologia, entende? Vou lhe dar um exemplo: o paradoxo da salvação parece instável: é reservada para nós para além do mundo, mas é desejada e necessária para agora, enquanto vivemos, enquanto fazemos todas as coisas que nos afastam dessa salvação. Então você pensa: eu não acredito nisso, não acredito que em momento algum sejamos salvos ou dependamos de alguma salvação. Mas isso é tecnologia. Quando pensa novamente na questão, percebe que, de fato, caso não fizesse as coisas que a afastam de ser salva, não precisaria da salvação, e não a desejaria. Mas isso não a impede de pensar que, caso quisesse ser salva... ou melhor, você sabe o que é viver, mas não tem idéia do que é a salvação eterna.
-- ... Quando você volta a pensar no assunto, percebe que ainda está na mesma. Sua tecnologia não serve. Bem, o exemplo não presta.
-- Bem, talvez confundi-me um pouco, o exemplo não presta. Fica parecendo que a tecnologia é o paradoxo, e não o blefe para fugir dele. Escute. Não há uma forma simples de se ver livre. É preciso saber manobrar. É necessário reconhecer que fazemos muitas coisas para nos sentirmos à vontade, e chamamos isso de ficar felizes, mas isso é uma manobra para recuperarmos um certo grau de ignorância, e sabermos que não temos controle sobre tudo. E sobre o que não temos controle, não precisamos pensar. [OK](quando tudo parece uma preparação para outra coisa)
...
-- E por que não? Por que sempre o mais difícil?
PS.: ana, o vídeo ficou muito foda, vc nem sabe, está sendo muito dura com vc mesma. Todas essas coisas são muito duras, aliás, vc bem sabe. O site também está lindo. Não sei, isso de fofura e contrabando, será que as pessoas estão preparadas? Bom, o contrabando do Acordados deu tão certo, mas é que agora a proposta é mais radical: amor e ilegalidade, de um jeito que, se vc olha do lado errado do vidro, só vê doçura, só se vc olha do lado certo percebe a locomotiva avançando velozmente pelas margens. Duas vezes espertos, não se pode cooptar aquilo que já parece estar cooptado, e não se dão conta do quanto somos mesmo marginais. Parece que, como com as crianças, só um par de ossos cruzados nos revela piratas, e como não os vêem... eis-nos armados com o salvo-conduto do próprio rei.
Publicado pelo homelupus em dezembro 24, 2008 03:12 AM