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dezembro 14, 2008

Sexto capítulo (segundo excerto)

A verdade do sexto capítulo é que nenhum de nós está salvo e todos estamos fugindo. O que muda é só a maneira como fugimos.

Não é o medo, em parte alguma: é a insatisfação. Estar assustado e sentir-se impotente é um segundo momento, em que já entram carregados de ressentimento.

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Bem, assim está escrito no meu caderno de anotações. O que poderia ser interpretado (quando vc tem um trabalho que se estende por mais de quatro anos, passa a ser exegeta de si mesmo) da seguinte maneira: não quer dizer a verdade do livro, a verdade de tal ou qual personagem, mas a verdade como captada pelo sexto capítulo, ou seja, o momento verdadeiro de um pensamento em transição. Isso de medo e estar assustado vcs sabem o quanto eu andei ocupado com essas questões, podemos dizer que foram o meu mot de passe ou algo assim por um certo tempo, e é claro que houve resultados do livro para fora do livro, por assim dizer, embora, mais diretamente, ainda no campo da poesia.

Agora um novo trecho, pra dimensionar o que há de factual no capítulo:

-- Toc, toc. Abre a janela, vai.
-- Hum. Oi.
-- Falando sozinho?
-- Não, estava chamando você. Que livro você tem aí?
-- Alice no País das Maravilhas. Eu estou lendo.
-- Sei.
-- Tem que ler ele primeiro antes de ler Através do Espelho.
-- É verdade.
-- E aqui tem cerveja.
-- Hum. Onde você vai com essas garrafas?
-- Se você abrir a porta do carro, eu posso falar.
-- Vamos, entra.
-- Tá bom, mas que pressa!
-- É.
-- Já entrei, que tal assim?
-- Mau, muito mau.
-- O quê que você não gostou?
-- Muitas...
-- Senhor, abasteça mais vinte litros para tomar um capuccino vienense em nossa loja.
-- Obrigado, tome você.
-- Senhor?
-- ...muitas coisas. Veja, não olhe, está vendo aquele carro ali parado? Nós estamos aqui parados também, conversando, mas pense que na verdade eles estão nos perseguindo. Que a qualquer momento podem começar a andar e então nós teremos que começar a andar também, e não vamos poder tirar os olhos deles. Já não se fica mais tão tranqüilo assim, não é? -- Mas você acha que eles vão querer te seqüestrar?
-- Não sei. Isso também é possível. Muitas coisas são possíveis. De qualquer maneira, dinheiro não é a única coisa que eu tenho para oferecer. Eles podem estar atrás de muita coisa, nunca se sabe. Talvez, não estejam interessados em mim, mas em alguma coisa que eu sei fazer. Talvez eles tenham sido mandados para me impedir de fazer alguma coisa. Qual é o preço das cervejas?
-- Pouco. Foi barato. Não tem muitas.
-- Deixa eu pagá-las pra você.
-- Não precisa, eu já paguei. Não se preocupe.
-- Não estou preocupado. Parece que você não precisa de nada.
-- Mas o que você faz, afinal?
-- Já te disse, eu faço filmes. Eu gerencio pessoas. Eu faço os artistas que vão fazer parte do filme se conhecerem e se entenderem. Eu traduzo a língua de uns para a língua dos outros. O diretor acha que quer uma coisa, e dá ordens para o roteirista. O roteirista quer outra coisa e não quer receber ordens do diretor. Os atores pensam que alguém sabe o que se espera deles, e fazem tudo igual até que alguém venha lhes dar uma ordem. O iluminador tem uma idéia, mas o fotógrafo vê as coisas diferente. Eu faço todos eles verem a mesma coisa e falarem a mesma língua. Parece muito difícil, mas no fim, não é porque eles já começam se comportando mais ou menos do mesmo jeito.
-- E algum deles virou teu inimigo? Você acha que eles alguém pode tentar sabotar o seu filme?
-- Algum deles não. Mas sabotagem é mais comum do que parece. Nós mesmos nos sabotamos, às vezes. Veja, eu estou fazendo um filme inspirado num livro chamado Um Crime Estranho. Tive que fazer todo mundo ler esse livro. Não faz diferença nenhuma, eles fariam o filme do mesmo jeito. Mas as pessoas são curiosas, e querem sempre saber mais. Não se contentam com o roteiro. Cada um quer caracterizar melhor seu personagem, e querem mesmo procurar a alma do seu personagem, e acham que a alma está no livro. Eu nem digo que não. Até o fotógrafo, pensa que o cenário é outro personagem e quer encontrar a alma do cenário do livro. Então eu o fiz ler o livro, sabendo que ele não encontraria ali alma nenhuma, mas mesmo assim ficaria satisfeito. Ainda outro dia ouvi do iluminador que tinha encontrado a alma do seu personagem no quarto capítulo. Eu quis rir, mas ao invés disso o parabenizei. Disse estar seguro de que a luz ficaria ótima. Ele estava muito satisfeito.
-- Mas então onde fica a alma dos personagens?
-- Não é assim. A alma não está antes dos personagens, antes do filme, está depois, quando fica pronto. Só aí se pode dizer se há alma ou não. Mas eles pensam que está no roteiro, ou na cabeça de alguém. Se o roteiro se baseia num livro, pensam que está lá, ou na cabeça do escritor. Mas é uma ilusão. Veja que engraçado: o roteiro desse filme se chama Crime Estranho. Como o livro, mas sem o "Um". Então eles sentem que falta alguma coisa no roteiro, e vão buscar no livro. O que eles buscam, na verdade é esse Um; Crime Estranho soa muito abstrato pra eles, quase uma conceitualização. Querem o fato, querem aquilo que torna a idéia algo único, algo singular, sobre o que ele possam trabalhar. Buscam, portanto, aquele "Um" que não está no roteiro mas aparece no livro. Buscam, em resumo, a alma do filme, em cima da qual possam trabalhar. O meu trabalho tem sido distraí-los a ponto de acharem que estão no caminho, e então permitir que trabalhem para que o filme, com ou sem alma, possa surgir em cima.
-- De preferência com.
-- De preferência. Mas a verdade é que, quanto mais fácil parece o resto, mais fácil é também de que o filme saia desencarnado. Isto é, sem alma.
-- Nossa.
-- E você, o que você faz mesmo?

Publicado pelo homelupus em dezembro 14, 2008 03:26 AM

Comentários

Oi Rafael
Adorei o que li da sua novela. Ainda vou ler tudo, na ordem certa, mas a curiosidade me atropelou um pouco e acabei lendo as últimas coisas antes. Mas não me arrependi, achei ótimo!
beijos e feliz Natal
ah! Aqui é a ex-aluna da Ana, que te conheceu no sábado..

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Oi Débora,
que legal que vc gostou, mas é o seguinte: isso é um trabalho não acabado, eu estou colocando só alguns trechos, inclusive fora de ordem, pras pessoas me ajudarem com sugestões, opiniões, críticas. Fica à vontade pra falar, não tem ponto de vista privilegiado ou exclusivo sobre essa questão.

Enquanto isso, vou olhar seu blog. Adorei a foto no cabeçalho, essa roupa largada de quem já está no mundo, e não veio só pra olhar. Beijo.

Glosado por: Débora em dezembro 22, 2008 12:34 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pode comentar aqui se quiser
(será preciso rodar um javascript; se não souber
o que é um javascript, já deve estar rodando ,-)


(a não ser que vc costume conversar com estranhos na rua)


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