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dezembro 06, 2008

Sexto capítulo (primeiro excerto)

-- Você tem que estudar?
-- Claro.
-- E não pode deixar de estudar?
-- Não.
-- Nós fazemos de tudo, e ainda estamos sempre devendo. Mas espera, estamos indo muito devagar.
-- Por que você está correndo tanto?
-- Por causa desse carro atrás de nós. Ele não vai nos deixar diminuir. Tem gente que está sempre querendo chegar na frente. Seja lá que lugar é esse. Não olham o caminho, tudo pra eles são obstáculos. Que nem nós.
-- Você parece um padre falando.
-- E daí?
-- Você devia descansar. E daí que tem gente atrás. Deixe que se explodam.
-- Não é assim. Eles podem provocar um acidente. Se eu tiver de brecar. Ou talvez fiquem tão irritados que resolvam vir nos dar uma lição. Com essa gente, nunca se sabe.
-- Você não está com medo.
-- Não. Isto é, no fundo, acho que estou. Mas também é improvável que alguma coisa aconteça. A maioria só dirige mal, e um acidente nesta velocidade não seria grave. Provavelmente seria pior pra ele que pra nós.
-- E então?
-- Mas mesmo assim. Não há necessidade de andarem tão perto. Quase não vejo mais nada no retrovisor; a não ser quando avanço também. E depois, preferia não ter de ficar olhando pra trás toda hora, ver se está tudo em ordem, se não vão fazer nenhuma bobagem.
-- Você não tem que ficar olhando. Você mesmo disse. Você faz uma regra, e você mesmo não consegue segui-la. Por isso, parece um padre.
-- E o que você tem contra os padres?
-- Nada. Até gosto do padre da igreja perto de casa, que minha mãe vai, que eu ia.
-- Não vai mais, por quê?
-- Não; o catolicismo --
-- O quê?
-- O catolicismo.
-- Se eu pareço um padre, você também, porque está falando igualzinho a mim.
-- Por quê?
-- Olha, o primeiro erro nessas questões é pensar que a igreja, querendo dizer, os sacerdotes, a instituição, são a mesma coisa que a religião, que a crença, que a fé.
-- E o segundo erro?
-- O segundo erro é pensar que um existe sem o outro. Quando você diz -- o catolicismo... Mas digamos que fosse possível, isto é, que pudéssemos escolher um certo catolicismo ao invés de outros, com que estamos acostumados (esse catolicismo é só uma heresia vitoriosa).
-- Mesmo assim eu preferia ficar sem catolicismo.
-- Não há alternativa.
-- Claro que há. Podemos ficar sem nada. Sem religião.
-- Ah, bem, podemos. Mas o que eu quis dizer é que não haveria outra religião. -- Isso também não. Tem a igreja evangélica.
-- Justamente. Não existe o evangelismo -- ou um protestantismo. É até possível pensarmos num padre pregando nosso catolicismo. Se pensarmos numa outro religião, seus padres só poderiam pregar a nossa religião; pelo menos na nossa cabeça: eu não faço idéia o que um muçulmano prega, por exemplo. E um pastor, eu não consigo imaginar um pastor pregando outra coisa senão o que eles pregam mesmo.
-- E você acha que o catolicismo é mais variado? (esse catolicismo é só uma heresia vitoriosa)
-- É, é mais variado. Você pode imaginar um padre falando um monte de coisas, e cada um fala coisa diferentes. Não só melhor ou pior, nem com mais ou menos carisma. Eles divergem. Cada um fala uma coisa, até coisas contraditórias entre si. Eles brigam entre si. Como se houvesse, mesmo, um catolicismo, que todos eles querem descobrir -- e sabem que não o atingiram perfeitamente.
-- Mais ou menos. Todos eles acreditam no pacado original, que somos culpados e que temos que nos arrepender para sempre.
-- Ah, aí é que está: eles não concordam a respeito disso.

Publicado pelo homelupus em dezembro 6, 2008 11:40 AM

Comentários

não sei porque isso me lembra alguma coisa... Risos.
Saudades. Beijoca.


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Ai, saco...

Glosado por: dwkwc em dezembro 6, 2008 04:33 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Quando vc menciona o que é o mais significativo em termos de singularidades nas diversas interpretações do catolicismo, o mais produtivo não é a discussão sobre o pecado original; essa discussão mais ou menos se encerra em si mesma. Tem, sim, uma dimensão mítica, mas que não tem muito espaço fora do campo propriamente religioso.
Agora se vc falasse em Cristo morrendo em nome de toda a humanidade, já contrapõe o cristianismo ao judaísmo, o que serve para localizar a discussão mais seriamente, e além de tudo é muito mais eficaz: Cristo morreu para nos redimir, mas ainda assim continuamos devendo? Depois, isso sim se assemelha mais ao fundamento do cristianismo, fora que leva a questão da salvação, que é o assunto principal do capítulo, a um nível muito mais power, muito mais promissor: não é mais a culpa, do pecado original ou do que for, que está em questão, mas se ainda precisamos correr atrás, literalmente.
E com isso, falando sério, vc sabe sequer qual é a diferença nessa doutrina entre o protestantismo e o catolicismo? Porque, que eu saiba, os protestantes acreditam que já estamos salvos, ou não, e isso de forma mais ou menos definitiva e aleatória (bem próprio de uma religião de estado laico), enquanto no catolicismo não estamos salvos de forma alguma, mas apenas se tivermos fé -- ou a cebola dos Karamázovi, ou o perdão imprevisível/caprichoso de um deus infinitamente bom, depending on who you ask.
Fora isso, mas agora quanto ao tom, leve em conta aquilo que a Diana falou, e que tenho certeza que vc não o ignora, que o tom deve ser verdadeiramente coloquial, isto é, mesmo um homem prolixo e chato não fala como escreve, e é preciso encontrar essa especificidade.
(E enfim, ainda sobre o que a Diana sugeriu, acrescento outra sugestão: que aquelas frases soltas, meio artificiais, que ele fala como se o autor quisesse colocá-las em algum lugar, faça o inverso: faça ele querer colocá-las ali, como se estivesse citando um autor. Afinal de contas, ele está ali para o seu proveito, não o contrário, não se esqueça disso).

Glosado por: me myself and i em dezembro 13, 2008 12:20 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pode comentar aqui se quiser
(será preciso rodar um javascript; se não souber
o que é um javascript, já deve estar rodando ,-)


(a não ser que vc costume conversar com estranhos na rua)


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