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dezembro 06, 2008

Por que sou filisteu

Na disputa entre David e os filisteus, não era o mal e o bem que debatiam, o cristianismo ainda não existia e o monoteísmo não havia se firmado como prática religiosa dominante. Visto pelo lado dos judeus, David já não era lá um santo, e pode-se imaginar que os filisteus eles também não tenham grandes elogios a tecer sobre os seus inimigos.
Assim, não me queimem se eu digo que sou também um pouco filisteu.
Por quê?
Tenho mil exemplos.

No ônibus, eu ando com a mochila no banco ao lado, porque sei que a maior parte das pessoas prefere sentar num lugar pior, ou até ir de pé, a ter que pedir licença.

A maioria dos autores que eu conheço é só de citação por outros autores; raramente deixo de me decepcionar quando os leio diretamente; nem mesmo Thomas Mann escapou ao fardo. Eu ainda acredito que são os autores mortos, e não eu, quem mais sofre com isso.

Eu adoro música clássica, mas acho difícil e costumo não entender. Costumo ouvir Smashing Pumpkins com muito mais atenção, e prefiro citar, mesmo textualmente, Arcade Fire num poema meu a escrever um romance sobre Beethoven ou Schoenberg.

Nunca li A paixão segundo G.H. nem quase nenhum dos livros que as pessoas dizem que têm a ver comigo, ou com o que eu escrevo, ou com o que gostariam que eu escrevesse pra parar um pouco com a confusão que me é própria.

Não sou, como bem se vê, capaz de levar uma enumeração a cabo de maneira convincente, e acabo produzindo alguns efeitos que não são os que eu almejava: que, por não ter logrado enumerar as razões do meu filisteísmo, logro provar, por absurdo, que não o sou; que estou tentando dar essa impressão, muito embora fosse capaz de melhor enumerar ditas razões. Na verdade, estou mesmo fazendo o melhor que posso, e não é por dar muito valor a essa forma de argumentação que sou mais hábil nela.

Embora seja muito hábil em certas formas de argumentação, por exemplo a demonstração pelo absurdo, dificilmente faço uso delas, e costumo preferir aquelas nas quais sou torpe. Costumo escolher os caminhos mais difíceis para a realização de qualquer coisa que eu julgue relevante, e dessa forma não preciso me recriminar o fracasso. Ou, ainda: dessa forma garanto que possa recriminar meu próprio fracasso.

Likewise, sou dotado de uma grande capacidade de ironia e cinismo, e talvez tão grande que me sejam esses artifícios às vezes quase involuntários, como dizemos de uma força que nos ultrapassa e opera independentemente do nosso controle. De fato, nunca faço uso nem da ironia nem do cinismo de propósito, mesmo sabendo que teria neles úteis ferramentas. Faço uso, no entanto, do sarcasmo, no qual sou desajeitado e grosseiro. Quando falho no sarcasmo, o que é freqüente, sou tomado por irônico e elogiado por isso. O efeito, do meu ponto de vista, é desastroso, porém: ofendo quem queria atrair com a brincadeira, e deixo passar incólume aqueles que eu julgava merecerem o paredão.

Enfim, não é à toa que eu escrevo um livro cujo personagem, David, é, precisamente, um filisteu. Certa feita pedi a uma amiga que me indicasse uma boa tradução de Bíblia pros meus estudos. Contei por cima, bem por cima, de que se tratava. Ela recomendou a do Pe. João Almeida, mas ressalvou: vê lá o que vc vai fazer com o David. Ele é o rei dos judeus, o ungido de Deus, antepassado do próprio Jesus Cristo. Ela se chamava Ruth e nunca soube o que se fez do seu ungido. E também por isso eu sou duplamente filisteu.

Levei minha filosofia de corsário tão a sério que há várias passagens do meu livro que eu não sei de onde roubei. Há passagens, inclusive, que eu tenho dúvidas se o autor é Ovídio, Baudelaire ou eu mesmo. Alguém poderia argumentar, a meu favor -- e um filisteu sempre tem defensores -- que o importante é que eu levei a ferro e fogo minha proposta, e esse resultado esdrúxulo é na verdade o testemunho do meu sucesso. Infelizmente, o fato verdadeiro é que não tenho intimidade com as obras nem de Ovídio, nem de Baudelaire, e quiçá de nenhum outro antigo dono de tesouros que eu saqueei. E essa é a razão de não saber atribuir as autorias, não a extensão da minha sanha pirata.

Sou triplamente filisteu, porque a Ruth tinha uns olhos azuis que chegavam a me doer de olhar neles, e esse é o verdadeiro motivo de eu ir pedir-lhe uma Bíblia. É evidente que qualquer um teria me recomendado a mesma tradução. Além disso, ela era protestante, e uma das coisas que eu ia falar no meu livro é sobre o quanto os protestantes deturpam a Bíblia e os seus significados. Pobre Ruth, vc viu que eu era um filisteu e blasfemava, mas vc se comoveu por mim? Vc quis mudar os meus maus caminhos, por que vc tratou-me com indiferença, vendo-me singrar em pecado, mas desejando-me sorte, como alguém que confia plenamente em Deus, mas não tem qualquer interesse nos Seus desígnios? Vc então comportou-se como uma santa, e eu não me surpreendi quando a encontrei dançando na boquinha da garrafa, como dizíamos naqueles tempos, numa festa em que nada se bebia e portanto nada era passível de justificativa. Vc nunca soube o que eu fiz do meu David, mas eu bem vi o que vc fez do seu. E eu, que não era Boaz, nem hebreu, tinha algum direito de me meter? Por fazer tão más escolhas, e que nem sequer me comovem o coração, é que sou mesmo filisteu.

E ainda tem o das promessas, tantas que fiz, e não cumpri. Vcs sabem do que eu falo, o ano todo, desde Buenos Aires. Dá até preguiça rever a lista. Coloquei no meu computador umas espécie de post-it, é um widget, pra quem sabe o que é isso, um desenho de um papel amarelhinho sobre o qual eu posso digitar minhas tarefas pendentes. Eu olho para a lista e quase chego a ficar orgulhoso da minha própria organização, mas é de colocar alguma delas em execução que eu fujo. Deve haver algo de muito horrível em cumprir uma tarefa, ou então eu não teria escrito é com satisfação que adiamos qualquer coisa, e assim como que garantimos amanhã (eu não sei se isso entra na categoria de filisteísmo, mas o verso não diz satisfação, diz facilidade; isso de satisfação vem das minhas leituras de Freud, e seria bem mais apropriado pro verso, mas eu teria que me matar se rimasse mais uma vez em ão; acho que entra sim).

E ainda assim pretendo fazer as tais promessas de ano novo. As do ano passado, não realizei nenhuma, e eram só duas. Tudo bem, eram duas difíceis, e eu fiz uma porção de outras coisas difíceis, mas isso seria motivo pra ficar contente, não pra arrumar mais sarna em que se coçar. Mas eu vou atrás das mesmas sanhas, e se mal avancei na publicação do meu livro de poemas, se mal avancei em terminar o meu livro -- de fato escrevi dois capítulos a mais, mas não o sexto, nem o sétimo, nem a cena da praça (só um trechinho) nem o final, que é o que é o mais difícil, enfim...

E ainda maço vcs com meus trocadilhos, minhas cacofonias, e escrever "que é o que é" só pra fazer gracinha, quando o certo seria "que são", pois de fato não só o último, mas principalmente o sexto, como não canso de dizer (mas não canso de não terminar, como um recalque que não cansa de não se inscrever, como eu diria no meu bom lacanês devidamente pirateado).

E com essa lista interminável, mas é que o dia todo me ocorrem mil coisas que eu poderia escrever aqui, e nunca as guardo, e coloco essas bobagens no lugar, só pra dizer que...

... ia dizer "que não os esqueci", mas isso seria filistino demais até pra mim. É só pra mostrar que sou mesmo filisteu, mesmo que só até certo ponto.

E além do mais, filisteísmo não existe. Talvez devesse ter começado por aí.

Publicado pelo homelupus em dezembro 6, 2008 01:36 AM

Comentários

Eu gosto muito quando você escreve sobre você. E sempre acho engraçado - e talvez esse seja um efeito inesperado do seu texto, ou não? "Eu teria que me matar se rimasse mais uma vez em ão" foi uma ótima piada ;) Mas eu rio de tudo, mesmo, você sabe...

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A gente sempre ri quando está junto, né?

Glosado por: dionea em dezembro 7, 2008 08:07 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pode comentar aqui se quiser
(será preciso rodar um javascript; se não souber
o que é um javascript, já deve estar rodando ,-)


(a não ser que vc costume conversar com estranhos na rua)


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