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novembro 21, 2008

Prelúdio - Morgenstimmung

Agora sim, o quinto capítulo in full.
Ah, sim, eu estou colocando meu quinto capítulo num site em que o conteúdo é liberado por copyleft? Sim, eu estou, vc pode pegar esse negócio e torcer de quantos jeitos quiser, mexer e remexer, revirar e revidar. Só não pode vender, isso eu não quero e proíbo, nem o resultado da sua remexença, a não ser que haja efetivamente um trabalho criativo em cima, se realmente eu não for achar que vc só se aproveitou pra fazer grana em cima do meu trabalho. Porque, nesse caso, vai ter que me remeter um numerário, no?

Antipatias à parte, quero que vc leia isso pra me ajudar na continuação, a Fuga - Road-movie.
Vou postar partes depois. Vc tem uns diazinhos pra imaginar o que virá.

E bom, é o quinto capítulo, então, se não conhece o resto, vai ter que imaginar também o que veio. O que não será problema, o vai-ter-que neste caso é uma liberdade, não uma obrigação.

Gostaria de pôr em prática
com você um pequeno exercício agora
porque não penso que seja algo
simples ou por outro motivo algo
que se possa tratar de maneira
inconseqüente, ao contrário, algo
cansativo, difícil, querer algo.

Não se trata simplesmente das
coisas que preferimos às outras,
como o que se escolhe querer, mas
que poderíamos, ou não, ter,
como quando falamos de sonhos;
mas coisas que não nos abandonam
e nos visitam em meio aos sonhos.

Acontece que não estive sempre
tão sozinho quanto parece agora.
De fato estive fora, colhendo
informações, vendo o que podia
ser feito. Sempre tão ansioso,
e esquecido de você aqui,
tão mole, tão dócil e distraída.

Lá fora não há mais nada, onde avanço
velozmente e invejo sua paz,
sua calma, e penso que foi em
algum momento que perdemos tudo.
Embora sempre se possa achar
que o mundo desde antes era essa
bosta. Mas insisto, porque desejo.

Não objetivo contar mentiras,
ser extravagante ou desagradável
apenas para chocar, mas é
fato que amei outras mulheres
enquanto não estava aqui. Não
é algo que me aconteceu mas
que busquei com determinação.

O que me preocupa são as coisas
que tive de pensar até chegar
aqui. Coisas que vi com clareza
e a precisão de se fechar os olhos.
Não quero pensar que a toda hora
posso ter deixado de levar
qualquer coisa em consideração.

Sempre motivos particulares
para achar que as coisas devem se
dar deste ou daquele modo,
sempre uma certeza ou desconfiança
etc. Você murmura um aconchego
e se vira pra luz da janela,
deixa a manhã vir tocá-la
através dos lençóis.

Ouço palavras de mundos, que
você dormindo não escuta.
Eu no entanto me sinto velando
por essas coisas inauditas.
Há uma diferença entre o que eu digo
e o que quero dizer. Ou então:
O que eu estaria abrigando?

Mas é certo que a moral do sonho
é outra da moral da vida, ou
do poema. Tem mesmo uma história
sobre Kirov, o grande rebelde
de 1917, que nasceu sob um inverno ― ―
escute, eu gosto dessa história, e
por longo tempo era só a que eu tinha

mas acaba em morte! Por isso
pensei outro dia sobre a sua
pergunta sobre o romantismo,
sobre quem foram os românticos;
é possível que eu tenha aprendido
ou tomado isto de outra pessoa
mas agora eu tenho uma resposta:

Naturalmente se pensa que
a marca dos românticos era
serem trágicos, sentimentais.
Claro que existia esse tipo:
o dândi pode ser um homem
entediado, mas antes de tudo
é um orgulhoso. Ele quer os eventos

triviais ou trágicos, tudo em que
possa ressaltar sua distinção.
Esta é a dialética que rege
a liberdade: é preciso saber
o que se quer. Não é pela emoção
que se destacavam aqueles homens,
mas por terem bem usado a razão.

Segundo seus próprios critérios
o pior deles foi Napoleão,
que se deixou levar pelos impulsos
e se auto-proclamou imperador.
Beethoven riscou o nome dele
de sua terceira sinfonia, mostrando
que a obra era maior que o homem

Herói foi ele, porque capaz
de uma superação, a saber,
não prender-se a um nome, a um indivíduo,
quando a individualidade havia
sido, ela mesma, sua principal
invenção. É que ele sabia que
individualidade quer dizer ―
mudança.

Mas é certo que a moral do poema
é outra da moral da vida, ou
do sonho. Se bem que lhe diga:
eu prometo, não é você quem
virá me perguntar se fui fiel.
Mas eu me lembrarei de repeti-lo,
e não farei soar como pergunta.

E direi: aquele foi o momento
derradeiro em que meu sentimento
se cristalizou em palavra. Agora
páro novamente para escutar
você ressonando, o cheiro da casa
penetrando sob a porta, minha
palavra nos teus lábios, dita

com esperança, encontrando em mim
não uma negação, um não-sei-onde,
porém, sim, leveza, como se afirmasse:
quando acordares, será tudo o mesmo.
E você o encontrará mudado.
Tenho em mim essa certeza, tantas,
tantas vezes vi acontecer.

É como se, duas metades
de uma regra infalível, você
preservasse a vingança, enquanto eu
guardasse a vigília, e, não dormindo,
sofresse a pena pela traição
que não houve, e o reflexo de uma
peregrinação ao vento, sob a lua

que, por não ter existido, deixou
marcado seu rastro sob o seu
travesseiro, e te acordou, e você,
diante de tais acontecimentos,
saberia observar a ordem
em que se deram, pela imagem,
como a sombra trêmula de uma vela.

Ora tal reconhecimento não
poderia passar despercebido.
Promessa feita, abandonei
o sentimento, confiando,
e mais, entregando a palavra
a você, para que se tornasse
guardiã do verdadeiro, enquanto

eu voltava os ouvidos para dentro,
e dizia não sei onde tudo isso ―
e agora, depois que ―
nesse ponto novamente escutar
você. Antes eu martelava as
idéias na cabeça, até as
compreender, isto é, ficarem gravadas.

No entanto, quando empreendemos
parceria numa fuga, os dois
precisamos ser rápidos, não
sobra tempo para decorar:
por isso me tornei partidário
das formalidades e tudo o que,
pela forma, fosse trabalho sobre a memória.

Quando eu digo: eu sou isso, não importa
o que sou, sim o que eu disse que sou.
Por isso é que se diz: eu sou isso.
Quando você analisa a fundo,
percebe que se identificar
dessa maneira é um passo, e um passo
necessário para a fuga.

Há muitas coisas que acontecem
no mundo, e não há sabedoria
que possa descobrir-lhes o sentido.
Ninguém pode afirmar: o fim das coisas
é melhor que o início; melhor
o paciente que alguém que se apressa;
a tristeza supera a alegria.

Pois é freqüente pensarmos nas épocas
mais difíceis de nossas vidas,
quando estivemos sozinhos em
praticamente tudo e não tínhamos
quase recursos, e dizermos:
então eu era feliz; quando antes
julgava ter vivido em terror.

Por isso é que apenas no tédio
reconhecemos qualquer mudança
não valer aquela que queremos:
pois o indivíduo se lembra de quando
nasceu, cantando, é verdade, atrás
das esposas de reis, mas culpado
e vivendo de subterfúgios

E isso é coisa que ele não quer mais.

Então deito novamente minha
escada, para começar
uma nova escada, onde começa
toda e qualquer escada, na suja
lojinha de quinquilharias
do coração. Mas o quê? Você
se levanta agora, espantada?

Você faz que duvida da minha
real intenção, diz que está cansada,
e com olhos que não são seus,
me diz que não está entendendo nada?
Pois que me interessa que seus olhos
bóiem como os de um bêbado ou
quase se fechem como os de uma

bicha sem compaixão, incapaz,
também, de reconhecer nosso impasse,
o fato de que para começarmos
tudo de novo dependemos
de um acordo, quando foi um acordo
que nos trouxe a necessidade de
começarmos tudo de novo.

Mas sem responder você prossegue,
absorta em alguma preocupação.
Pois há dias, como hoje, em que nada
há pra se fazer, mas postergamos
qualquer coisa com facilidade,
e assim como que garantimos
amanhã. Complicamos

tudo, na esperança vã de que a fuga,
a derradeira fuga pudesse,
por assim dizer, solucionar,
por assim dizer, algum problema,
e assim ficar parecendo
que recuperamos alguma coisa.
Não é assim que buscamos um ao outro?

Você pergunta: o que você quer?
Qual seu interesse nisso tudo?
Você vê em mim alguma redenção,
um caminho para a paz, ou descanso,
a resposta para a pergunta: estou salvo?
Mas também posso ser sua perdição,
você diz, para confirmar suas crenças

mais terríveis. E mesmo sem pensar
mal de você, tenho que admitir:
trata-se mesmo, sempre, de ver
histórias confirmadas, e um fim,
trata-se sempre de morte e abandono.
E, neste caso, o que faço eu
com seus pensamentos, ou você

com os meus? É certo que teríamos
um pouco mais os pés no chão, mas
já não estão nossos pensamentos
um pouco enevoados? O que faço?
Tento pôr os pés no chão? Mas já
não estão nossos pensamentos
enevoados demais?

Publicado pelo homelupus em novembro 21, 2008 07:19 PM

Comentários

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