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novembro 19, 2008
Estrutura da língua
Preciso escrever rápido pra contar o seguinte:
eu sempre achei que a questão da escrita está mais na sintaxe do que no vocabulário, de certa forma seguindo o Mário de Andrade de 1942, que explicava assim o erro do José de Alencar e, até certo ponto, dele mesmo.
Até que ontem entrou um cara no ônibus com a filha, de dois anos e meio, falando sem parar, e demonstrando que tinha o maior vocabulário fodidão, e ele faz uma brincadeira com a filha pra ela fazer perguntas pro motorista usando palavras que nem eu nem vc saberíamos pronunciar, e daí vai a menina, meio tímida, meio desafiada, vacila, hesita, e a meia voz arrisca: eu diria que ela teve um 7,5 na tentativa: "Você é ... ou ..." Não vou fingir que lembro vagamente o que era. Mas a resposta também foi boa: "eu sou é desprovido de vocabulário pra te responder".
Maravilha, pensei. Talvez o Mário esteja errado. Talvez haja uma pujança que só se encontra no vocabulário.
Mas não sei, hoje fui comprar um sanduíche, e a moça pergunta: "queijo cottage ou estepe"? Eu sempre peço estepe, porque é parecido com muzzarela, mas depois que ela passou a maionese no pão, pensei: ah, pode ser cottage mesmo.
Ela ficou um pouco contrariada, não sabe o que fazer com o pão começado, e fala: "mas o cottage não vai maionese". Eu disse que não tinha problema. Ela só soube repetir, como alguém que dá uma notícia horrível e quer ter certeza que a outra pessoa ouviu todas as palavras com exatidão: "o cottage não vai maionese". Mas eu gosto de maionese, não me incomoda, pode fazer. Lá pelas tantas me explicou que não ia maionese porque cottage é light. Aí eu não estava preocupado com a maionese, veja bem, mas o negócio já tava a meio caminho, eu com fome, e queria entender qual era o problema de não ir maionese e cottage juntos. Daí falei: não vai, médio, vc é quem tá fazendo o sanduíche, vai o que vc colocar aí, certo? Balançou a cabeça: "mas é que é o padrão". Eu falei: vc está dizendo que não pode fazer diferente do padrão, é isso? Acredite, eu estava achando a conversa mais surreal que ela, e embora já estivesse bravo com tanta teimosia, queria mesmo era saber, sinceramente, se havia uma regra que a impedisse de misturar a porcaria da maionese com o cottage. Quem sabe ela ia ser chicoteada, ou iam descontar a maionese no hollerith dela, eu sei lá, só queria saber. Ela ficou completamente perdida, juro, e desistiu de argumentar. Fez um olhar de raiva de quem está acostumado a obedecer, e continua não gostando disso, e resolveu colocar cottage no meu pão. Terminou o sanduíche com pressa, irritada, e sem olhar pra mim, me despachou com meu rango.
Que loucura, e eu só contei isso porque cheguei numa conclusão importante. Eu não estava tentando ser convincente, só estava tentando entender qual era o problema. Ela não via o problema: "não vai maionese" é quase uma frase sem sujeito. Pra ela surpreendeu que "vai o que vc puser, é vc quem está fazendo". Havia uma instrução ali no ar que ela não conseguia captar, saber de onde vinha, e por isso não conseguia me explicar o problema: me disseram que não pode, não posso, não me deixam. Simplesmente, impessoalmente, "não vai maionese". E eu, com as minhas perguntas, deixei-a sem rumo, mesmo sem querer: ela não esperava por uma pergunta simples, verdadeira, uma pergunta com lógica, começo meio e fim: esperava uma ordem, uma instrução, e quando veio outra coisa, não pôde responder, a não ser como se fosse uma instrução, e respondeu contrariada.
Pra mim, isso não está só escondido na relação de poder -- apesar da minha carinha de leite A, eu podia ser qualquer um ali. Pra mim, isto está na linguagem, que ela dominava tão mal. Pois a parte mais simples de se dominar em qualquer língua é a instrução: vc é capaz de ter uma ótima refeição num restaurante do interior da Alemanha sem falar uma palavra de inglês ou alemão, só transmitindo e recebendo instruções. É o núcleo elementar da língua, digamos assim. Isso significa que o aprendizado limitado de uma língua transmite, principalmente, o que é das relações de poder.
Talvez eu esteja exagerando em torno do sanduíche, mas veja, estava voltando de dar uma aula de inglês, eu acho que eu sei do que eu tô falando. Ela não entendia metade do que eu dizia, e eu não usava um vocabulário diferente do dela. Eu estava bravo, é verdade, estava com fome, mas ela também estava brava. E eu não estava bravo porque ela não me obedecia, mas porque ela não me explicava qual era o problema. Eu perguntei diretamente qual era o problema, ela não soube me responder. Qualquer pessoa que tenha terminado o pré-primário é capaz de explicar quando faz alguma coisa porque deixam ou não deixam, qualquer criança de cinco anos. Mas ela não, simplesmente porque entrou em outro registro de linguagem.
Se a gente aprende a dominar uma língua, e quanto mais aprende, mais se distancia do ponto em que ela se resume a instruções, ordens e sins ou nãos (não é à toa que o imperativo é sempre o tempo verbal mais simples, e usa-se o infinitivo pra definir regras: proibido fumar, mascar chiclete e pisar na grama).
E esse é o único, único mesmo, ponto em que eu concordo que a educação é o meio de se mudar um povo. Ensinar a língua, pra que ele não mais precise obedecê-la.
Nos campos de extermínio da Alemanha, tinham mais chance os que sabiam o alemão.
Eu acho realmente importante ensinar inglês.
Publicado pelo homelupus em novembro 19, 2008 06:33 PM
Comentários
Gostei muito do seu texto, essa é a primeira vez que leio seu blog e acho que realmente as pessoas mais instruídas tem mais chances de conseguir algo e de ser alguém.
bjos.
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Bem-vinda. Mas como vc chegou aqui?
Bj.
Glosado por: Sulamita em novembro 21, 2008 10:51 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.
Ela devia ter dito que misturar cottage com maionese causa a morte, que nem manga com leite...
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Mas claro! Que falta de cultura!
Glosado por: dionea em novembro 22, 2008 08:29 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.
Acho que cottage e maionese têm mesmo um parentesco que escapa à composição química ou à linguagem: ambos são pastosos. Ou seja, tem lógica serem alternativos: ou um ou outro. Mas é uma outra lógica. Tem a ver com experiência, com textura, com o passar uma pasta em cima de outra pasta: é mesmo esquisito e dificilmente fica bem feito para que está a fazer...Talvez seja isso.
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E ainda acrescento, considerando de resto o próprio NOME do blog:
"Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta"
Degrau da poesia de Ferreira Gullar para transitar entre estômago e linguagem: arte?
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Arte culinária, isso sim!
Que nem o espírito do cozinheiro no Ratatouille: "nunca faltará comida pra quem gosta de cozinhar". Sniff.
Glosado por: Angela em novembro 24, 2008 08:29 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.
a verdadeira viagem na maionese!
Glosado por: fred em dezembro 3, 2008 01:11 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.