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outubro 08, 2008

Uma questão de legitimidade

Ficamos sem as fotos, porque a ana foi pro Chile para o Poquita Fe o enorme festival de poesia do Chile, de gosto duvidoso [censored argument] nevertheless of doubtless valor.

Fico sempre fascinado como pessoas from all walks of life aparecem neste blog, sabe-se lá procurando o quê. Claro, já digo que não investigo a vida de quem vem por aqui, ao contrário assumo por pressuposto que os que vêm eu já os conheço, como não tenho o hábito e acho chato visitar blogues de gente que eu não conheço -- o escritor de blog é um personagem, mas não interessante o bastante para sustentar-se por si: o divertido do blog, pra mim, está no jogo de miragens entre o homem e o semblant, e nisso se resume toda a minha filosofia sobre o assunto, todo o resto, pra mim, sendo balela e falatório.

Dito isso, imaginem que se vc procura pelo título do blog no google encontra centenas de dezenas (isso seriam milhares, ou estou mal de conta?) de blogues de gente anoréxica preocupada com a alimentação mais do que com qualquer outra coisa. Ah, sim, não é beleza a questão para elas, é o alimento: não é que elas não comam, mas sim que elas comem nada, como dizemos em psicanálise. Se vc as visse comendo, diria o mesmo.

Agora imaginem também que ontem alguém passou aqui procurando saber o que era gênero epistolar. Ora, se vc digita no google essa expressão, meu blogue é a quinta entrada!, pelo menos onde eu moro -- vc sabia que o google seleciona as buscas de acordo com o seu IP, certo? -- Então o cara não ficou satisfeito, porque eu não explico o que é, mas porra, ele tinha um exemplo bem na frente dele, um não, cinco, e não ficou contente! Assim são as coisas. No outro dia teve alguém que ficou revoltado porque eu comparava a igreja ao mau gosto. Não assinava. É incrível que as pessoas fiquem revoltadas com a nossa livre expressão, mas permaneçam anônimas, o que, nesses casos, é vedado pela Constituição --- não que eu seja tão legal assim, mas mesmo assim, eu acho engraçado.

E como eu sei de tudo isso, é porque deixam recados, quer dizer, é antes pelo ódio que as pessoas se expressam, que pelo amor.

E agora que eu voltei a escrever todos os dias, por quantos assuntos não vou passar de relance, e as pessoas vão passar aqui, procurando uma coisa, e se aperceberem que eu trato dessa coisa mas não como a enciclopédia, que trata as coisas pelo que elas são, mas como um artista, que trata as coisas pelo que elas parecem ser?

Quantas pessoas ainda não posso decepcionar, escrevendo assim, quantas pessoas ainda farei perderem seu tempo, encontrando não só o que não procuravam, mas também aquilo que simplesmente não podem compreender?

Será que, incidentalmente -- e ironicamente, paradoxalmente -- consegui neste blog exatamente aquilo que buscava no livro, apenas com a difença de que essa conquista vale justamente para aqueles que não são para quem eu escrevo, quando no livro isso deveria valer precisamente pra eles?

Será que fico obsoleto para mim mesmo, assim?

E se é assim, o que eu vou comer amanhã (a questão se repõe)?

There she goes, my beatiful world, there she goes ... again!

Publicado pelo homelupus em outubro 8, 2008 07:36 PM

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