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agosto 15, 2008
Não é nada demais
Terminou a FLAP semana passada, por isso retornei ao blog, e ainda não disse nada sobre como foi. Acontece que um evento dessa proporção é tão intenso, tão emotivamente desgastante, tão transformador em nossas vidas, que eu nem poderia falar muito. Os soldados voltavam mais silenciosos da guerra, não mais ricos em experiências, dizia W. Benjamin. Mas, de fato, passamos por muita coisa e tenho muito o que dizer, e se não tenho estado silencioso, também me resguardo de só falar da FLAP pessoalmente: quem viu, viu, quem não viu, só vai ouvir dizer. É assim. Mas o poema que eu li coloco aqui, como prometido, e ainda mais que hoje não tem nada melhor pra falar do ambiente em que nos encontramos, agora que voltamos ao normal.
NÃO É NADA DEMAIS
As pessoas só estão assustadas
não houve tempo e você sabe
as cenas se desenrolam sem um ensaio
sem sequer um roteiro
as pessoas pegam o que têm à mão
se você olha de longe pode perceber o medo
e o em si mesmo curiosamente animal das pessoas
Dirceu Villa - As pessoas só estão assustadas
Não é nada demais
nós só estamos assustados
hoje
se fizer frio e se chover ao mesmo tempo e por causa disso
só por causa disso não pudermos sair de casa
nós só estamos assustados
quando chegamos tarde da noite cansados e acendemos
todas as luzes da casa só estamos assustados
ao pedir para o garçom que nos troque de mesa ou os talheres
por algo mais confortável nós só estamos assustados
com os olhos pregados na embalagem de um alimento matinal
que vem pronto nós olhamos assustados para os gatos à noite
nós havíamos imitado os gatos à noite à noite
quando olhamos bem assustados para os olhos de alguém
e repetimos aquelas frases que escolhemos para declarar
nosso amor que pode bem ser amor verdadeiro como os tais girassóis de Van Gogh
para os quais nós também nós já olhamos assustados
nós só estamos assustados e falamos o tempo todo
de jogos de gato e rato e esperamos o tempo
de olharmos em volta como o gato, nós somos os ratos nós
só estamos assustados como quando começa o carnaval
e sabemos que se chove ou não
sempre sobra alguma coisa para nós porque
todas as ruas são becos e
todos os becos são avenidas intermináveis
nós só estamos assustados quando você volta atrás e decide
que agora sim vai me seguir embora não esteja clara a diferença
entre amor e adoração para que eu também te siga
e também assustado lhe digo que procuro
a um bairro industrial antigo quando passo pela praça
em frente de onde você morava e
penso que se me visse agora
ou não me reconhecia ou ficava muito assustada
nós só estamos assustados lado a lado pensando tratar de outro
assunto nós estamos ficando assustados porque digo a você
quero vê-la mesmo assim nós só estamos
assustados querida nós dormimos assustados nos braços
um do outro e acordamos ainda assustados
nos braços um do outro quando é tarde da noite e
passamos o dia todo em claro estamos muito assustados mesmo
assustados quando olhamos para o calendário e nos parece ver
ali outro futuro que não este a que estamos condenados
ficamos mais assustados nosso futuro ainda
não estava no calendário quer dizer que ainda
não estamos com os dias contados nós só estamos
vivendo num período em que chamam luz à escuridão
e embora minha língua esteja morta
suas formas me alucinam nós estamos
vivendo num período cujo nome não sabemos
e embora seja o medo o que me move
meu coração mal está batendo nós só estamos assustados
se ligamos o ar condicionado ou se o desligamos
quando vendemos nosso carro muito barato quando compramos
outro mais caro nós só estamos assustados
quando vendemos nosso carro por uma bicicleta porque nossos filhos terão de esperar tempos melhores para nascer
nós só estamos assustados querida mas não chegue não chegue perto
já talvez não seja o tempo em que se possa dizer que nós só estamos assustados.
Publicado pelo homelupus em agosto 15, 2008 11:13 AM