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julho 08, 2008

Sem humor

Em Gotham City é muito difícil manter o humor.

É preciso manter o humor, você sabe. Aliás, foi você quem me ensinou isso.

Você que, naqueles anos, quando descobrimos que o apocalipse estava próximo, e você cuidadosamente me explicou que não era porque se aproximava, mas porque ainda não tinha se afastado o bastante, você manteve a chama acesa, firmemente.

Pensavam que você era de ferro, se lembra? porque você mantinha o bom humor. Agora o problema é que é muito mais difícil manter o bom humor, como é difícil não ter pena de nós mesmos nunca nunca.

Eu mesmo vivo reclamando, puta, eu sofro, e a gente sabe que não há motivos ainda, porque ainda não foi o melhor que nos aconteceu, e não terá sido o melhor ainda. Você mal perde por esperar.

Atravessando a tal ponte estaiada, que não só tem aquele mau gosto repetidamente pensado, que alguém inclusive se ocupou de justificar de alguma maneira bem ridícula, mas que é também iluminada com um mau gosto bastante sintomático, que até me faz pensar em cozinhas mal iluminadas, eu tentei pensar no que estava fundamentalmente errado, e evitar a crença na vingança pronta e conveniente de um deus irado, mas justo, e evitei pensar também na impossibilidade de uma seita armada, porque sabemos que os suicídios com bombas existem quando entre o imaginário de uma classe e o de outra se ergue um muro, e as nossas classes não têm muros entre seus imaginários, que são na verdade bem iguais e moram numa fazenda com cercas vivas em volta, e os muros que se erguem entre elas são reais e portanto só permitem o suicídio privado, catorze comprimidos de paracetamol, número bastante consistente, de resto, mas a verdade é que, mesmo por isso, consegui apenas pensar que não seriam o bastante, porque as pessoas que vivessem dessa maneira, conjugo mal, as que vivem e viverão dessa maneira terão necessariamente de ser pessoas exageradas, elas terão necessariamente que se lembrar de seus primeiros beijos porque lhes faltará a vivência de qualquer outra coisa que não tenha nome, e principalmente lhes faltará a vivência de qualquer pessoa que não tenha sobrenome, e por isso precisarão fazer de seus primeiros beijos algo a ser lembrado, inclusive escreverão livros valorizando a importância da memória, como hoje se ouvem poetas falando de poesia.

Você não estará por perto, veja, nós estávamos lá quando tudo isso aconteceu, nós vimos os homens andando como se tivessem morrido, como você observou, mas não estaremos lá quando a tragédia se abater sobre eles, e não haverá testemunha alguma dessa tragédia, nem mesmo eles, desde já mortos demais para que possam senti-la, e pressinto que será mesmo por aí que essa tragédia os alcançará, porque não podem sentir, e se recusarão a ver, como Édipo.

Nosso destino será outro, a nós nos acompanhará ainda a angústia, para sempre renovada e sempre a cada vez que uma vida nova se apresente diante de nós, uma vida que ameace nascer, que não pergunte muito sobre nosso talento para lidar com ela, não nos pergunte muito se estamos em condições de sustentá-la pelo que for, e principalmente não pergunte muito se estamos à altura dela.

E estaremos, eu digo pra você, e estaremos, e eu sei que estaremos porque levamos as coisas a sério mesmo e ainda quando falamos com humor, e, sendo poetas, acreditamos em nossas metáforas ao ponto de que elas possam também não ser mais metáforas, e quando estamos diante de uma nova vida sabemos que pode ser mesmo um recém-nascido, uma criança que vai crescer e viver sua própria vida, e se tornar um dia algo como o que nós mesmos nos tornamos, isto é, um abismo profundo, um buraco-negro, e assim como terá sido amada, também amará vigorosamente, ternamente, e porque sabemos de tudo isso, e nos angustiamos, sabemos também que ela se angustiará, talvez mesmo mais que nós, e por isso aumentamos nossa própria angústia, mas veja você, vai ser lindo, e nós teremos estado lá, o tempo todo, e não vamos perder um momento sequer.

Isso eu prometo a você, e você sabe que eu não estou só fazendo humor.

Publicado pelo homelupus em julho 8, 2008 01:35 AM

Comentários

[posto no Peixe mais tarde]

A primeira vez li a mensagem inteira, até os ossos e lágrimas. Não há outra maneira de explicar como li, estou brega ultimamente. Na realidade, não: o conceito do que seja exatamente brega é o que distorce as coisas. Neste parágrafo importa dizer ainda que na segunda vez que li, já estava tão cansada que desisti, é terrível não conseguir descansar a cabeça nenhum segundo, porque você simplesmente está dentro dela.

Ao conceito de brega: o tal shopping para AAA – focado em pessoas com mais de um milhão de reais. Mausoléu a meia luz, um grande motel ampliado, onde ninguém se toca, com espécimes arbóreas absolutamente artificiais – como se a natureza que prestasse devesse ter a aparência plástica – em lugar de espelhos no teto, o lúgubre das bossas novas pelos ares e sprays ventiladores ininterruptos para evitar qualquer cheiro do rio que menstrua cocô morto lá embaixo. Inventam essa de carregadores de sacola. Uma bolsa de 200,00 reais encontra-se até no Promocenter, mas é exatamente pelo carregador de sacolas que se vai até lá. Perder a vergonha de ser rico. Ou de tentar ser, claro.

Assim, o brega torna-se simples de definir: a agressividade sem fim de manter-se num lugar que não te pertence. Como isso daí, um shopping desses nesse paisinho, com um rio sólido de cocô na frente e cadáveres que te esfaqueiam as pernas, as mãos fantasmagóricas dessa gente sofrida que morre quando foram expulsos à bala para construir teu túmulo em vida. Restam os fiapos de favelas como vizinhança. Seqüestrarão teus filhos gordinhos, já tão entupidos de potatos, infartos aos 16 anos de medo, de fome calculada pela moda aos 17, de qualquer tipo de experiência sexual e droguitas entregues pelos seguranças aos 18. Adultos finalmente mortos, tão mortos. Por isso é necessário que alguém carregue as sacolas, permaneça com os rádios ligados vigiando, ligados, os ventiladores no teto circulam o ar, circulam, e toca essa bossa nova alegre.

Aí penso na mensagem que me escreveu - até agora, durante anos, realmente continuo sem lembrar o sobrenome do Tomás, claro que é uma vergonha, ainda mais se sentei durantes anos na carteira de frente à dele, num colégio que o sobrenome é o nome mais comprido, mas não quero mais lembrar coisas passadas há anos, isso faz mal, descobri. Por isso a cabeça é um lugar inóspito, com ventiladores que também nunca cessam e daqui não se pode sair.

Acho graça em várias coisas, sim, o bom humor. A caixa promocional de 20 comprimidos de paracetamol, suicide-me, adoro. Um hit absoluto. Contudo, alguma coisa me foge. Essa vontade irresistível de desistir das coisas, tem algo de muito confortável nisso, quase a almofada que vc ganhou no congresso de psicanálise. Que esses ventiladores no teto parem e eu possa ouvir o silêncio um pouco. A grande pergunta é: porque eles têm esse direito de estarem tranqüilamente mortos, a paisana, circulando em corredores quadrados por horas, e a gente aqui, entre mensagens desesperadas, sei lá se utópicas, aos ossos, barrancos e lágrimas? Digo que tenho a resposta: seria realmente brega se você fosse também um morto. Por isso, güenta o tranco. Como os mortos nos cantam, here we go.


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Também li duas vezes, o que vc escreveu, e me peguei (até os ossos, até as lágrimas) das duas vezes, no final, com a mesma pergunta, que também não consigo responder, e finalmente me vem a imagem do Odisseu amarrado ao mastro do navio, resistindo ao canto das sereias; e então me lembro finalmente daquele texto do Benjamin, sobre o texto do Kafka, O silêncio das sereias, você lembra? Não sei, tanto faz, você tem razão, foi o dia inteiro isso, pra mim também, e você tem razão, que nem diz meu professor de tai chi: ainda tem muito serviço pra fazer.

Glosado por: ana r em julho 8, 2008 09:18 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.

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