« O Livro de Alan - curta-metragem | Entrada | Agora sem fôlego »

junho 14, 2008

Ressaca

Eu quero escrever mas não quero escrever.
Por causa disso, vou escrever muito, sem dúvida.
Vocês sabem que, andando por aí, na internet, mais de uma vez encontrei minha contraparte? Não digo alma gêmea, mais meu duplo, meu doppelgänger -- haverá ainda muito o que falar a esse respeito -- e tive mesmo a impressão de ter inventado duas ou três personas, porque se põem a escrever exatamente como um personagem meu faria -- não pensem que todos eles escrevem como eu.
Agora veja, eu não sei dirigir na Marginal. Parece piada, mas eu não sei mesmo. Podia ser uma coisa do meu inconsciente, podia ser uma questão de educação primária, ou simplesmente uma questão de neurônios destruídos pelo uso inconseqüente de substâncias tóxicas na adolescência tardia -- ou o uso constante e nem tão inconseqüente do álcool de cana, deus é pai; mas a verdade é que eu sempre perco a entrada da Anhangüera, e nunca percebo até que esteja na Ponte do Limão. Pensar que eu já quis estudar Geografia... na vida vc tem desafios e caminhos bem arrumados, mas uma coisa é certa: às vezes vc se depara com um muro, e não adianta o quanto tente, nunca vai conseguir. Por isso eu estou acordado a essa hora da manhã sem fazer nada, porque me deparei com um muro e ele é a impossibilidade de que eu seja capaz de encontrar a entrada para a Anhangüera num tempo prático para chegar a um compromisso.


Vou colocar aqui agora um poema que achei no blog do GG, o qual descobri senão hoje -- fazendo nada, of course -- e que foi uma bela surpresa. Não, bela surpresa é pouco, me emocionou bastante, e foi uma alegria, uma satisfação, perceber que ele fez isso, que ele escreveu assim, e isso diz tanto de tanta coisa, não digo dele, digo de mim, de nós, da nossa cidade, do nosso caráter, das nossas escolhas, e para um sábado de manhã era o que de melhor eu podia encontrar hoje. Saibam que esse poema é importantíssimo e deveria constar de qualquer antologia da poesia da nossa geração. Assim (chama-se Topográfico, suponho, o título pouco importa):

Não, espere, é preciso uma pausa antes de ler esse poema, assim como é preciso uma pausa antes de fazer um monte de coisas que se faz na internet, como é preciso uma pausa para o olhar o Libro de Alan e o filme que nós fizemos, para mencionar isso que ainda nos trás tanta alegria, é preciso que as coisas se sucedam a partir do seu tempo, e não a partir do tempo do carregamento da página ou dos ciclos do processador.

É sábado de manhã, faz sol, e vc se depara com este poema de um amigo que não vê há anos, porque agora mora em outro país:


É dia de semana e meu avô me telefona,
deseja almoçar no Hilton.
Tomávamos brunchs no Hilton,
nossos domingos em família;
também em outros locais,
sempre porém no topo.
Ele sempre escolhia edifícios altos
no Centro, de onde, longe das ruas,
respirava-se o progresso
na cidade topográfica.
Algumas vezes, das janelas
viam-se colinas por trás dos prédios,
o pouco que temos de horizonte.

Caminho até a Avenida Ipiranga.
As pessoas nas ruas cobrem-se
de casacos ou enrolam-se em cobertores.
Chego à porta ao meio dia
e o Hilton fechou, me informa um porteiro
sem a antiga farda azul-marinho,
o Hilton mudou-se, deixou seu endereço no centro
para uma localização privilegiada.

Também eu deixarei em breve
de atravessar todos os dias
a rua Boa Vista, deixarei os camelôs
e os restaurantes antigos
e teremos uma imponente fachada
às margens do rio,
com localização privilegiada
e janelas que não abrem.

Não sei se pelas janelas do novo Hilton se vêem as colinas
que existem para além da metrópole
ou se há apenas os bonitos edifícios da marginal
como aquele no qual estarei.

Mas sinto que a cidade, como eu,
veste lentamente um terno cinzento
e vai se enforcando aos poucos,
cada dia de uma cor.


Agora chega por hoje.

Publicado pelo homelupus em junho 14, 2008 09:47 AM

Comentários

Oi. Pra te dizer que passei por aqui, trazida pelo meu Linux - me dado por ti.
Beijo.

************************
Ah, maravilha. We're gonna spread the world. Mas com internet e tudo, como foi isso? Gostei de saber.

Glosado por: dwkwc em junho 15, 2008 11:49 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pois te asseguro que a canção vibra no mesmo tom, se não com as mesmas notas (o que tampouco excluo), também deste lado del río. Obrigado, meu - como é mesmo? - meu irmão.


**********************************
Não tem de quê.

Glosado por: Geraldo em junho 16, 2008 04:17 AM. Obiectiones eventuais por homelupus.

ah, esse poema! eu o conhecia... engraçado que agora tb habito as marginais.

beijo

**************************
Eu também... e são bem outras, né? Quer dizer, o trenzinho, e tudo.

Glosado por: ana rüsche em junho 16, 2008 02:03 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pode comentar aqui se quiser
(será preciso rodar um javascript; se não souber
o que é um javascript, já deve estar rodando ,-)


(a não ser que vc costume conversar com estranhos na rua)


(pode usar HTML, por exemplo: <em>texto_em_itálico</em> ou <br /> [faz quebra de linha])