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maio 11, 2008

El género epistolar (I)

dionea,

minha amiga mais antiga, nem sempre a que mais me compreende, mas certamente a mais leal, mais generosa, a mais sincera, também, o que não é de se desperdiçar, você sabe.
Fiz tanta besteira ontem!
Não, mentira, dizemos sempre que é besteira depois que bebemos, ainda mais quando acordamos de ressaca! Nenhuma besteira, na verdade, só me diverti bastante.
O Gus, por exemplo, começou a contar as primeiras experiências amorosas dele. Foi só quando eu falei pra ele que não tinha público lá pra isso, quer dizer, o público era numeroso demais pra esse tipo de confissão, que ele se deu conta que já estava bêbado -- olha, não foi uma festa de bêbados, eu mesmo não cheguei a ficar: o motivo de eu odiar vodka -- e parou.
Mas, antes, é que ele ia dizendo, quando eu o interrompi, pra mim era uma dificuldade até só falar oi... -- Gus, o difícil não é dizer, o difícil é ouvir.
Na hora causou certa comoção, essa frase minha, porque ela supõe uma certa profundidade, e as pessoas até certa idade ou nível escolar acreditam que em festas não se pode atingir essa profundidade (sob pena de exclusão ou esculacho), e se afastaram de nós. No que estão um pouco certas: hoje, escrevendo isso, dionea, penso que não atingi a profundidade pretendida. Por isso resolvi te contar.
Porque a gente, quando ouve isso, que o difícil é ouvir, pensa ou que se está sendo babaca, tratando de que é preciso ser educado ou atencioso (the bare minimum!) ou que é um mandamento judaico ou sufi.
É porque a gente mesmo quando lê isso agora põe o acento no ouvir.
Quando o acento deveria estar na dificuldade.
E ainda mais, explico em inglês, vc vai me entender:
The problem it is that it is not difficult to speak to one self, but that it is so hard to listen from her.
Não, dionea, el problema es el siguiente, porque estou te escrevendo: é que eu estou curado, da ressaca, que não tem motivo algum, da bebedeira (você sabia que eu não bebi nenhuma vez, nenhuminha? Só o convencional, o buen trago de todos los días, mas não aquela pra esquecer, sabe? Não ia adiantar, é a ironia da coisa), a gripe, o luto, tudo passou, sabe? Estou te escrevendo pra deitar meu coração fora, poor my heart out of misery, porque tem certas coisas que continuam, descobri, vão continuar marcadas, não digo pra sempre, porque fica parecendo que são únicas, como quando temos uma experiência que nos torna capazes de termos experiências -- um dia talvez eu te explique como eu vejo essa questã, mas eu acho que você vê igual -- ou prosseguimos inexperientes pelo resto da vida; ou então uma experiência inigualável, etcetera, e não é disso que se trata. Mas digo marcado, embora não diga pelo resto da vida, é porque é sim pelo resto da vida, uma marca é pelo resto da vida, e se incorpora no que você é: você é suas marcas, quando já não é a imaturidade que te marca pela falta delas. Como com o velhinho na fonte da juventude, que se recusa a entrar para não perder suas rugas. Eu acho essa história tão boba, mas você há de convir comigo que é também linda.
Eu que já sabia disso, não te contei antes porque só hoje de manhã me deu as manhas de escribir. Aliás voltando pra casa passei por um carroceiro, troquei duas palavras com ele, e sabe o quê? Ele falava tão bem. Lembrei imediatamente da barbárie lingüística que é toda noite de sábado, como sofre o coração das gentes -- não, dionea, não me recrimine, você sabe que eu ando sentimental mas não é fraqueza, não é mais idealismo, embora não vá deixar ruborizada uma menina de 14 anos -- mas é o coração das gentes que sofre quando elas massacram a língua como o fazem, sem perceber, e nas noites de sábado mais que em quaisquer outras, eu acho -- e eu teria outras para escolher, nem te conto, mas só pra garantir mesmo que não é esse tipo de sentimentalismo a partir do qual estou falando -- e ele, pobre coitado, mais pobre que coitado, devo dizer, falando tão bem, tão claro, tão seguro, tão aberto, tinha passado a madrugada inteira, inteira, e fazia frio, você bem se lembra, catando lixo, devo dizer, lixo reciclável, lixo limpo, sucata, dizemos, mas lixo, também, um lixo que ele não produziu.
Não sei, talvez eu esteja só um pouquinho sentimental, after all.
Vou te mandar, junto com esta, uma cópia de um retrato dos Arnolfini, aquela do Eyck que o poema de ontem remete. Assim você fica um pouco purificada pela imagem -- que é bastante grotesca, a meu ver, não sou de entender pinturas, depois o Dirceu talvez me ajuda -- e compensa a falta de pureza (assim dizem, ellos publicitários) da vodka.

Eu falo grotesca por várias características, depois vc me fala, mas eu fico nervoso igual certas mulheres quando passam giz duro na lousa, ou outros, quando se passa a unha numa toalha áspera, eu de ficar vendo esse realismo gritante, essas toalhas, essas texturas, me dão coisas, que-nem dizia o Chapatins (aliás fui olhar o nome dele certinho, acredita que o ator chamava Roberto Bolaños? É inacreditável! Dessas coincidências que não se cansa de se espantar...)
Um beijo, te cuida./

Publicado pelo homelupus em maio 11, 2008 11:14 AM

Comentários

Pois então. Agora entendi o motivo do telefonema. Risos.

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Pois então. Agora eu é que não entendi essa. :-D

Glosado por: dwkwcw em maio 12, 2008 05:00 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Cara, que saudade de conversas bêbadas de verdade, quer dizer, em que há algumas pessoas que não estão ali para cumprir seu papel.


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E você, segue fazendo falta aqui hein...

Glosado por: Geraldo em maio 12, 2008 05:40 PM. Obiectiones eventuais por homelupus.

Pode comentar aqui se quiser
(será preciso rodar um javascript; se não souber
o que é um javascript, já deve estar rodando ,-)


(a não ser que vc costume conversar com estranhos na rua)


(pode usar HTML, por exemplo: <em>texto_em_itálico</em> ou <br /> [faz quebra de linha])