novembro 19, 2009
Formação
Um homem forte cresce, ou seja, torna-se homem, tendo que lidar com o fato elementar de que, simplesmente por ser o que é, possui, em si, a capacidade real e presente de, a qualquer momento, e de acordo com sua disposição, engajar-se num combate físico mano-a-mano e, em consequência disso, matar um outro homem com as próprias mãos, o que é exatamente mais real, e menos imaginário, de acordo com o grau dessa mesma disposição.
Por causa disso, cresce, ou seja, torna-se homem, tendo que lidar com o dilema moral que essa disposição determina. É preciso que não se disponha a matar esse outro, porque, caso contrário, ele o fará, mais cedo ou mais tarde.
Falo de homem forte, mas, em verdade, qualquer homem de força mediana enfrenta essa questão.
Apenas a um homem constitutivamente fraco não se apresenta o dilema de Caim
frente a seu irmão.
Em consequência, um homem constitutivamente fraco será, também, um homem cuja moral terá de passar por outros caminhos, outros meandros, para se constituir naquilo que em geral chamaríamos de um bom caráter.
Não gostaria de ir ao ponto de dizer que isso implicaria, também, que tem esse homem suposto mais chances de perder-se, em termos morais, do que aquele outro, o constitutivamente mais forte. Embora, tendo-o dito, não me vêm argumentos fáceis para desdizê-lo, e a experiência do homem comum, a que temos acesso pela vivência e observação, não me oferece tais argumentos, uma vez que, a uma, são demasiados os homens sem caráter para que achemos muito restrita a circunstância de sua perdição, e a duas, do fato de que seja necessário, a esses homens fracos, um certo número de meandros, a fim de encontrar-se, não decorre que esses meandros sejam raramente encontrados, e poderia bem ser que houvesse mais homens fracos e de caráter, do que homens fortes, e que houvesse mais homens fortes sem caráter, do que homens fracos na mesma categoria, e justamente porque esses últimos terão precisado de enfrentar dilemas de maior monta, mais sutis ou mais exigentes que aquele outro, mais simples, com o qual iniciei toda essa argumentação, e que constitui a hipótese que estou tentando provar.
Considero, assim, secundária a questão de decidir se os homens fracos têm ou não mais chance de se perder, e também secundária a questão de decidir se, de fato, perdem-se mais que os outros, os homens fortes. Aliás, qualquer leitor deste blog, que como todos sabem, tenho em alta conta, consideraria falaciosa e perigosa a tentativa de estabelecer uma ligação direta entre a força física ou constitutiva de um homem a seu valor moral.
A questão, portanto, que tenho como primeira, aqui, é de saber se, de fato, aquele dilema é importante para aqueles homens que o enfrentam, e se, em decorrência disso, sua falta exige que os outros homens passem a enfrentar um certo número de outros dilemas para chegar às mesmas conclusões ou valores morais que farão, também deles, aquilo que em geral chamaríamos de homens de caráter.
Meus argumentos são fracos, na verdade: em primeiro lugar, me ocorre que esse pensamento não passa, em mim, de uma intuição, mas uma intuição poderosa o bastante para me colocar convicto de meu argumento. Não tão convicto que não o ponha à prova, aqui, mas também, por isso mesmo, mais convicto ainda, posto que uma hipótese que pomos à prova torna-se mais possante por esse mesmo motivo. Em segundo lugar, tenho, a favor dela, um dos documentos mais privilegiados para verificar alegoricamente o que são os padrões e modelos humanos, e que levanta minha hipótese como verdadeiramente essencial, apresentando-a na história de Caim e Abel na posição e altura em que apresenta. Finalmente, em terceiro lugar, possuo um argumento duplo, e de pouca valia, mas aqueles familiarizados com a maldição de Tirésias haverão de concordar comigo. Tal argumento consiste em que eu mesmo, tendo nascido com uma fraca constituição, e adquirido, com o passar dos anos, não apenas uma estatura mas uma condição de saúde bastante invejável, tenho o privilégio de conhecer os dois lados da moeda, e tendo passado por todos os meandros dos quais falo, e sem mencioná-los aqui, uma vez que a palavra meandros não se presta à dúvida e expressa verdadeiramente a dificuldade em explorá-los (o que, não obstante, tenho feito em outros lugares e momentos), acabei passando, eventualmente, pelo dilema oposto, ao qual aludo em primeiro lugar, e que, não menos do que os outros, me faz considerar a posição em que me encontro neste mundo, entre outros homens, iguais ou não tão iguais a mim.
Com isso, talvez os mais perspicazes entre vocês, ou aqueles mais atentos, ou simplesmente aqueles que, pelo peso das horas, acabe deparando-se, entre as linhas, com as mesmas sutilezas das quais agora me ocupo, acabem percebendo, ou acreditando, que penso estar em condições, pelo que acabo de afirmar, de ser juiz dos outros homens, ou que, pelo menos, me julgue moralmente superior, tendo passado por uma dupla prova, quando outros, diferentemente, enfrentaram apenas uma. Nada pode estar mais longe da realidade, quando efetivamente, ao referir Tirésias, tinha também a intenção de fazer ver que a dupla prova não é, de forma alguma, um privilégio, ou ao menos não é um privilégio que não atraia, em consequência, uma maldição. Se faço ver mais longe, ou mais fundo, ou mais após do que o comum dos mortais, se me faço de profeta ou opto por uma linguagem mais canhestra, misteriosa, ou simplesmente arrogante, e se assim mesmo disser verdades, se, portanto, tirar forças da minha deficiência ou maldição, e puder por isso enxergar onde outros veem somente trevas, isso não deve ser encarado como dom, mas simplesmente como a natureza compensatória daquilo que é mítico e que, por essa mesma razão, de ser mítico, não faz de mim um herói, apartado dos outros homens, iguais ou não tão iguais a mim, e mulheres, que não haviam ainda entrado nesta história, mas sim alguém que partilha, em igual medida que todos, daquilo que insufla esse mito, e que, sendo heroico, invejável, ou possante, não é menos terrível, doloroso, agourento.
Publicado às 0h45 | Comentários: 0
novembro 18, 2009
A internet é um tesão
Se vcs entrarem no blog do Radiohead, vão ver a coisa mais sensacional: os caras da banda colocam listas de música. Sim, como se fosse um disco, só a lista das músicas. Provavelmente o que eles estão ouvindo no tocador de mp3. E o Johnny, pelo menos, cuja seleção é sempre mais rara, põe um link para um lugar onde se pode ouvir a lista dele.
É como se eles te dissessem o que está alimentando a própria criação. Como se eu escrevesse, aqui, um monte de bobagem, colocasse um certo número de referências, copiasse uns textos, pra que quem leia tenha uma ideia de pra onde está indo minha criação.
Espere, eu faço isso.
Mas meu blog não é um tesão. Instalei um negócio chamado Clicky. Descobri agora que os 100 leitores que o weblog apontava são pura mentira. A não ser que 90 deles estejam me acessando por leitores RSS, tenho menos de 10 leitores por dia.
Mas sou eu que estou enganado.
Não é a falta dos outros 90 leitores que faz do meu blog menos tesão.
Afinal, sei quem são os outros 10.
Eles com certeza fazem do meu blog um tesão.
Acharam que eu não ia terminar com um xaveco, hein!
Publicado às 0h00 | Comentários: 0
novembro 14, 2009
Back to back
Então eu estou escrevendo o meu livro e mudando de apartamento.
Grande coisa.
Pois é, grande coisa.
Publicado às 15h10 | Comentários: 0
novembro 12, 2009
Todesfuge, reloaded
Agora sim, fechei com a versão final do poema.
Atualizei no post inicial, que se acha aí
Todesfuge - Paul Celan.
Comentem, por favor. Uma tradução nunca é algo final.
Publicado às 17h02 | Comentários: 0
novembro 11, 2009
Coisas que adoramos: poemas de ocasião
Se eu soubesse que íamos ter um apagão, teria colocado mais gasolina no carro. Teria carregado o celular e pagado um provedor de internet discada. Eu teria mantido um lampião funcionando, e teria ido morar mais perto da minha namorada. Eu teria mais grafite pra lapiseira, porque não escrevo muito a lápis. Por ora isso vai ter que servir. Teria uma poltrona perto da janela, e uma mesinha ao lado para a cachaça, porque nessas condições posso me indispor com algum livro. Teria tirado o dobro de dinheiro no banco esta manhã, ou mesmo o triplo, embora não tenha muita vontade de sair de casa. Teria um quarto maior, onde eu pudesse fazer exercícios não só sentado e deitado, e teria gasto menos meus olhos, descansando mais. Teria menos comidas congeladas, mas provavelmente não me satisfaria tampouco com as conservas. As coisas são imprevisíveis quando o assunto é o apetite. Fiz bem em não ter doado todas as minhas revistas em quadrinhos. Teria aprendido o violão, o piano e o trumpete, e teria vizinhos que não se importariam de ouvi-los à noite, mas ao contrário, me cumprimentariam carinhosamente pela manhã, antes de irem ao trabalho. Eu teria mais plantas, elas não se importam com o escuro quando não é dia. Não teria toda essa mobília escura, mas sim um enorme tapete branco. Teria mais livros importantes na minha estante, e menos num diretório obscuro na pasta raiz. Moraria sozinho, mas teria uma xícara com o nome de cada um dos meus amigos, que é pra eles se sentirem na obrigação de vir exercer a propriedade de tempos em tempos, e o apagão pode durar muito. Teria um dicionário de espanhol, outro de italiano e outro de alemão, porque nunca se sabe o que esse clima pode nos fazer querer pensar. Teria pelo menos alguns pontos de encontro definidos, de modo a que não precisasse requisitar ninguém específico se eu me sentisse sozinho. Os acasos é que fariam dos encontros algo específico. Saberia mais músicas de cor, e teria aprendido a assobiar e tocar gaita. Talvez não seja tarde ainda. Saberia mais números de telefone de cor. Teria uma lousa de giz e muitos cartazes rabiscados com pincel atômico. Eles seriam a imagem do meu cérebro quando estivesse muito escuro pra enxergar. Eu teria mais o costume de pronunciar as palavras enquanto escrevo, e de cantarolar sozinho. Meu tocador de mp3 teria mais música clássica, e não só Mahler e Rachmaninov. E também discos raros do David Bowie, se é que os há. Teria uma outra escrivaninha. A geometria das coisas muda de acordo com a direção de onde vem a luz. E pode se tornar muito angulosa e desconfortável. Teria mais travesseiros, mais almofadas. Definitivamente eu teria mais velas, e lugares adequados onde deixá-las. O medo de um incêndio é imanente, como se apenas estivesse apagado sob as luzes frias do dia-a-dia. Como se qualquer um pudesse acordar, no meio da noite, sob os gritos de socorro, de alguém ardendo em febre, ou em chamas. E eu fico pensando que tudo aquilo que fica, de comum, sob o nível da água, cristalinamente escondido, tivesse então que ser iluminado. Talvez não incidissem sobre ele as melhores luzes. Eu penso que o relógio não deve ser levado tão a sério, e como gosto de dormir tarde, posso achar incrível que a maior parte da nossa vida, ou ao menos boa parte dela, tenha que se passar no escuro. E penso, também, que no escuro as perguntas que nos fazem levam mais tempo pra chegar até nós, e assim também é normal que levemos mais tempo para responder. E acho curioso que as metáforas de pensamento, por exemplo, reflexão, sejam metáforas de luz.
Publicado às 10h50 | Comentários: 1
novembro 10, 2009
Não importa se foi comigo
Encontrei uns amigos do colégio, e um deles me lembrou dessa história, que eu infelizmente tinha esquecido:
De ter saído na mão com um cara, por causa de uma menina, sendo que ela não queria saber nem de mim nem do outro. E que hoje ela é um canhão.
Publicado às 3h19 | Comentários: 0
novembro 05, 2009
De um newsletter que eu participo
Ah, que maravilha que o GG escreveu, e a Maiara, e o Paulom. Porque fiquei conhecendo o blog dessas duas maravilhas, Marjorie Rodrigues e Mary W., porque fiquei achando a história mais interessante e mais importante do que de primeira, e porque deu vontade de falar com todos vocês de novo.
Primeiro, apesar da precisão da análise dessa Mary W., acho que ela errou dizendo que a Uniban foi feita pra formar um público crítico. Isso é o que a gente queria que fosse, mas acontece que é uma instituição privada e além disso é uma instituição de ensino superior privada, o que, desde o Ministro Paulo Renato, da Educação, do FHC, significa que ela não serve para formar um público crítico, mas pra fazer o que quer que o dono dela decida que ela deve fazer. E, no caso, todo mundo sabe que a Uniban foi criada pra lavar dinheiro do jogo do bicho.
Então é claro que é inútil discutir o caráter de qualquer pessoa envolvida diretamente na história, porque, como disse a Mary W., trata-se de uma massa acrítica, o resultado da máquina de moer carne e lavar dinheiro. Não é a liderança momentânea, que põe fogo na massa, o que importa. Em certo sentido, o líder também faz parte da massa (não, não vale nem um centavo a mais). Eles fizeram o que estavam programados pra fazer. Eu não vi o vídeo, não sou psicólogo e não trabalho com material pornográfico (não falo da saia, evidentemente, mas é uma lista pública e há aqui os que não sabem que também não sou irônico), mas é óbvio que nada saiu dos conformes ali. Apenas a barbárie ficou explícita. Mas a barbárie já está instalada nesses lugares há muito tempo.
A comparação do GG é precisa também. O cara do metrô, na época a juíza Christine Santini (é preciso dar nome aos bois, essa é uma lista pública e ela uma autoridade, hoje desembargadora estadual), titular na Vara onde eu trabalhava, ela estava em Londres, e na volta comentou sem dó, tinha que ter atirado mesmo. Era a opinião dela, é claro que sendo juíza ela não precisa lidar com a habilidade de fazer decisões éticas ao calor do momento. Mas a polícia sim, e no entanto fracassaram. Porque viviam na barbárie, naquela época. A polícia inglesa. Famosa mundialmente por tolerar xingos e respeitar as liberdades individuais. Não é à toa, as liberdades individuais foram inventadas na Inglaterra. Se eles não bancarem isso, o mundo acaba. Nesse sentido, é bem verdade o que disse. Acabou mesmo. E na Uniban é a mesma coisa. Fracassaram, todos eles, porque já viviam a barbárie. Tantos alunos, então, dizendo que isso manchou o nome da universidade. Efetivamente, eu teria trancado a matrícula no dia seguinte. But then again, já não teria me matriculado ali in the first place. Não, essa preocupação deles me lembra os nazistas escondendo seu passado. Me lembra o Brad Pitt marcando uma suástica na testa dos nazistas com a ponta da faca.
Todo mundo sabe que eu não gostava da São Francisco. Que eu me envergonhei mais de uma vez por estudar lá. Mas, embora ali também seja, por outros motivos, uma máquina de moer gente, a barbárie não estava lá instalada. É verdade que era uma sombra ameaçadora, mas não estava lá instalada. A existência da Academia de Letras, e mesmo desta lista, é uma prova disso.
Mas na Uniban a barbárie está instalada, e infelizmente não há resposta pronta pra fazer um lugar deixar de abrigar a barbárie. O máximo que podemos fazer, isto é, não estou falando de revolução, é marcar com ferro. Pra não esquecer. Porque não devemos esquecer. Se estes são os nossos universitários, são um pouco de nós. Se isso acontece na nossa cidade, no nosso país, com pessoas com quem convivemos, mais ou menos bem, que encontramos no cinema, no shopping, bem perto, que podemos contratar ou que podem nos contratar ou com quem podemos nos associar pra trabalhar juntos, ou que podemos encontrar num estádio de futebol ou num banco de delegacia, então estamos um pouco próximos da barbárie.
Mais perto do que gostaríamos. Isso é o que eu acho que o GG queria dizer, que estava faltando nessa história.
PS.: agora relendo, quero esclarecer dois pontos: não quis dizer marcar com ferro como se marca o gado, mas marcar com ferro como se dá nome aos bois. E também não quis dizer perto, como querendo dizer, no banco do lado. Quis dizer, no nosso próprio banco.
Publicado às 0h28 | Comentários: 1
novembro 04, 2009
Putz
Estou fodendo de novo meus próprios combinados.
Combinar consigo mesmo dá nisso: vc acaba se aproveitando no lado do sadismo e no lado do masoquismo.
Mas então isso já fica parecendo pornografia, e já disse que nunca ia falar de cinema aqui.
Mas por falar nisso, chequem os links novos: Bazárov, o Nerd e Astier, cujo nome não é um acrônimo.
Ah, tanta coisa pra dizer, tão pouco tempo pra arriscar.
Estou cumprindo promessas em outras partes, pelo menos.
Sei que aqui isso não vale muito.
Mas eu ando feliz como naquele poema.
Publicado às 1h43 | Comentários: 0
outubro 29, 2009
No entanto... (já não terei dito isso? Não)
Está bem, são só duas coisas: eu conheço o único judeu jesuíta que existe.
E a Marcinha Bechara escreveu um livro maravilhoso, a Ana leu pra nós hoje uns trechos. Chama-se Métodos extremos de sobrevivência. A carta ao pai de Kar-el é inacreditável.
E Kqi, parabéns pelo aniversário. Não são muitos que se passam assim.
Publicado às 3h22 | Comentários: 1
outubro 28, 2009
Se eu contasse...
... mas não posso contar. Eu sei que isso é sacanagem, mas é pra vcs saberem que é a única.
O motivo de não contar não é esse, portanto.
Mas não posso contar mesmo assim.
Mas vão lá no blog da Ana, deve ter as fotos do lançamento do livro do Juliano Pessanha. Pelo menos foi o que ela prometeu.
Fora isso, nos vemos nas Satyrianas fim de semana. Sem saco pra links hoje, though. Sorry.
Publicado às 21h34 | Comentários: 0

