agosto 27, 2008
Do gênero epistolar V
Angela,
andei pensando na pergunta que você me fez sobre a mensagem sobre o sarcasmo e a ironia, a respeito de com quem eu estava dialogando, e acho que agora tenho uma resposta.
Não que eu estivesse dialogando com ninguém, mas justamente por isso fiquei meio sem entender a pergunta, ou achando que devia ter alguma coisa mais relevante a ser considerada e que eu não estava me dando conta. Mas veja: era de fato um monólogo.
No começo, tinha uma pessoa só que lia meu blog, e era a Ju, e hoje ainda ela lê, de vez em quando, como eu o dela, mas isso não chega a ser um diálogo. Agora tem outros que dialogam comigo sim, por exemplo o Gegê, o Kqi, e é claro, a ana. Mas não só as pessoas que têm blog, também outras, que são minhas amigas só de carne e osso, e às vezes lágrimas, sangue e cachaça, porque nesses tempos de amores líquidos, como você costuma dizer, também a fraternidade se cria a partir dos líquidos, e vêm aqui de vez em quando ler e, veja você, também têm paciência. Porque às vezes isto aqui fica meio inóspito, você sabe.
E escrevem, não só fazem comentários, mas às vezes quando me encontram dizem o seguinte: legal aquilo que você escreveu, achei que era pra mim etc. E é claro também que quase sempre é.
Por isso, também, todos aqueles artefatos que costuma ter nos blogues, que explica quem veio e olhou, quantas vezes, quantas pessoas, de que lugares, eu não cuido de nada disso. A pessoa vem, olha, às vezes faz um comentário, às vezes me conhece, mas eu vejo que algumas vezes não. Às vezes a pessoa vem pelo blog de outra pessoa, que comentou o meu por algum motivo, como eu também comento os dos outros... é como uma comunidade, vamos dizer assim. Isso que dizem de vez em quando no jornal.
Mas há uma técnica envolvida nesse processo que ultrapassa a questão técnica, o "de onde veio" e "o que procurava". E essa técnica é justamente como estabelecer um diálogo.
Porque o mais das vezes é só mesmo um monólogo.
Acontece que eu escrevo para as mesmas pessoas que eu gostaria que me ouvissem falar sobre determinado assunto, e às vezes para provocá-las porque eu gostaria de ouvi-las falar sobre determinado assunto, então são as mesmas pessoas que eu encontraria de outra forma, se a época fosse outra, se a cidade fosse outra, se nosso tempo não estivesse se comprimindo cada vez mais, como você às vezes diz, embora eu não concorde lá muito com isso. Aqui eu tento falar com as pessoas que já não posso encontrar, ou quando encontro tenho já outros assuntos pra falar com elas, ou ainda porque gostaria que elas me lessem, ao invés de me ouvir, porque você sabe que eu falo muito e às vezes é preciso silenciar um pouco para que uma certa profundidade possa ser alcançada.
O que também não tem nada a ver com o livro, trata-se de um diálogo real e imediato, o que eu busco aqui, é o que estou tentando dizer.
Mas não, quando eu falava sobre sarcasmo e ironia é por causa de uma idéia que eu faço dessas figuras há muito tempo, e que estou aplicando no sexto capítulo do meu livro, e que de qualquer forma tinha um pouco a ver com o momento que a nossa, digamos assim, comunidade estava passando. Está, ainda, não vai deixar de estar tão cedo.
Mas porque não era com ninguém específico que eu estava falando, acho que é isso que você queria dizer, também eu gostaria que alguém ainda desconhecido, alguém que, por acaso, já houvesse se deparado com questões como aquela, não, com aquela mesma, teria de ser, que essa pessoa pudesse vir expor suas idéias, porque tenho estado tão solitário pensando naquilo, há já muitos anos, se você quer saber, alguns da Academia de Letras da faculdade talvez ainda lembrem, mas eu coloquei uma questão a esse respeito no e-groups lá pra ver se alguém me ajudava, e olha que na época o Altivo falou alguma coisa, ajudou mesmo. O Altivo você não conhece, mas ele era da minha turma.
Mas não, e também se eu falasse alguma grande bobagem dificilmente alguém ficaria intrigado, ninguém acho que não ficaria incomodado, talvez meus amigos ficassem um pouco preocupados, ou fizessem que nem o João, parassem de ler no meio e depois viriam comentar isso comigo. Ele lê sempre, mas comenta só quando vai mal. Isso é um bom sinal, geralmente. Que nem com você, talvez eu devesse pensar assim, será?
Enfim, não é só o diálogo pelo diálogo, e sim pela importância do que se dialoga. O caso é que as coisas têm estado bem difíceis, por uma série de motivos, isto é, isto de dizer a todo o tempo "eu sou branco!" ou "se você não sabe quem você é, você tá fora", isso dá muito trabalho, pra todos nós. Mas o bom é que é um trabalho que todos podemos ver os resultados, porque são bastante evidentes mesmo, pra quem acompanha as escansões: você hesita por um momento, mas depois já sabe o que está colado nas suas costas. E, antes mesmo de pensar, já sabe o que fazer.
Vai ver que é por isso que eu estou engordando, é o que eu acho. Você vai rir disso, mas você pode. E sabe também que eu vou continuar achando igual, não adianta.
Enfim, só pra você entender. O porque eu ando tão sério e tão alegre também ultimamente.
Beijo./
Publicado às 23h55 | Comentários: 0
agosto 26, 2008
Como ensinar exemplarmente
Uma vez a ana rüsche me pediu um poema para o dia das mulheres, aquela coisa toda (foi no dia 5-III) e eu lembro bem como foi escrevê-lo, lembro bem o que queria dizer com ele.
Agora, ela e o Alan deram uma leitura na Bienal do Livro, sábado passado. E como eu lamento ter feito a minha antes, porque teria muito a ter aprendido da experiência deles. Então recomendo vcs darem uma sapeada lá no blog deles pra poder ver como foi, imaginem todas aquelas crianças ouvindo atentamente... eu lembro como foi ler no Cursinho da Poli durante a FLAP, então imagino aquilo multiplicado por 10, por 15.
O Alan diz lá que, em português, ele é uma criança.
E eu me sinto engatinhando em várias línguas ao mesmo tempo, sem ser nativo em nenhuma delas.
Publicado às 8h20 | Comentários: 0
agosto 24, 2008
A ironia é a porta da frente da má-consciência
Aqui já não há antecâmara, não há espaço onde se possa permanecer, há simplesmente uma fachada, que diz algo, mas o diz de maneira suficientemente ambígua para que possa também dizer o contrário: o objetivo é que o enunciador se preserve de qualquer mal-entendido, jogando a responsabilidade sobre o interlocutor, que adquire a obrigação do bom-entendedor, que, como se sabe, deve se contentar com meias-palavras.
Além de fingir inteligência, quando nem sempre teria sido necessário fingi-la, bastando empregá-la, o irônico fica a salvo de sua própria ironia, como que estabelecendo uma distância segura, inclusive em termos de altitude, perante o objeto da sua crítica, e estabelece com algum interlocutor, que não seja o objeto direto dessa crítica, a relação de comunidade ou paróquia (Lacan), a partir da qual inclui uns e exclui outros, traçando um limite entre os que podem entrar e os que não podem, sendo o entendimento da ironia a porta de entrada.
O que escondem atrás dessa porta, no entanto, e que não fica claro em momento algum, é a má-consciência que guardam, diretamente relacionada àquilo com relação ao que estão sendo irônicos. O irônico, visto desse ponto de vista, é nada mais que um moralista sofisticado, mas também um pouco hipócrita, uma vez que está incerto quanto à sua própria moralidade e, em vez de questioná-la em primeiro lugar, já que isso aparece para ele como tão relevante, prefere colocar-se à parte, protegido, quase inatingível, de tal forma que se pudesse pensar dele nestes termos: mas ele? não, qualquer um, mas ele, não, sem dúvida! Quando a dúvida é que era seu problema inicial.
Por isso defendo o uso do sarcasmo sempre que possível, que é mais direto, e mais sincero. O sarcasmo, ao invés de colocar o crítico em posição de exceção, coloca-o, juntamente com todos aqueles objetos possíveis do sarcasmo, como mais um passível de crítica, e talvez o mais frágil de todos, aquele que, por ter sido o enuciador da própria crítica, corre mais o risco do ridículo, da exposição, do fracasso. Aqui, se ele tem dúvidas a respeito de si, as põe à prova, e se tem inseguranças, as supera, dando a cara à tapa, e põe a própria conduta como exemplo, a partir do qual sua crítica adquire maior estatura: aqui também se diferencia a prepotência da arrogância -- enquanto o prepotente que se torna sarcástico torna-se também, com isso, imediatamente ridículo, o arrogante encontra-se no seu elemento, justificando, então, sua arrogância, e tornando-se do tamanho exibido, com seu sarcasmo, porque mantém-se, apesar das expectativas contrários, acima de sua crítica, não tão acima a ponto de não ser atingido por ela, mas, ao contrário, sendo bastante alvejado, revela-se altivo o bastante para não ser por ela ferido.
Se a ironia é, no campo lingüístico, uma arma, o sarcasmo é uma metralhadora giratória. Se a ironia é uma pistola delicada, com lugar para talvez duas balas, que, se pode ser usada para um assassinato à tocaia, também pode ser usada para um suicídio intempestivo, o sarcasmo é o fuzil com que se vai para a guerra pelo tudo ou nada, onde os dramas pessoais perdem sua força e a experiência de uma coletividade é colocada em cheque.
Assim concluímos.
Publicado às 10h06 | Comentários: 0
agosto 21, 2008
But I miss you
Ontem fui então à feira, e ela é gigantesca. Claro que nós não somos o público alvo -- em todo mercado há um público alvo, ai que saco, essa linguagem sobre a ideologia, todo mundo sabe o que é público alvo, todo mundo sabe o que é um alvo e todo mundo sabe que em geral é o mesmo que possuir uma fair skin, mesmo que preta, e podem ter certeza que não faz tanta diferença assim falar no Salão Volkswagen ou no Sarau do Binho.
Ai que saco, a leitura foi ótima, na verdade, como foi a leitura no Sarau do Binho, durante a FLAP, embora lá eu não tinha microfone e na Bienal sim, e lá só li um poema muito curto, duvido que houvesse concentração para Não é nada demais, e na Bienal li não só Não é nada demais como li também aquele dos chineses, talvez alguns lembrem dele, e foi bem legal estar lado a lado com a Andréa Catrópa, que é uma graça e joga pra valer, embora se você perguntar pra ela ela vai dizer que é só um amistoso, e o Donny Correia também, o coordenador cultural da Casa das Rosas, que nos convidou.
Tinha mais ou menos umas oito pessoas ouvindo, o que de certa forma foi bom, porque a acústica era uma merda e com menos pessoas se ouve melhor, e creio ter sido bem audível quando eu disse que o livro não era o suporte mais adequado para a poesia, coisa que eu ouvi na FLAP de alguém e que, vocês sabem, propriedade intelectual não é algo a ser respeitado tanto assim, só lamento não ter dito quem era o santo porque não lembrava, mas também aproveitei para citar o poeta Alan Mills como uma das minhas referências literárias, mas é claro, porque se eu falava de poesia para a qual o livro não é o suporte adequado, não podia deixar de mencionar o Livro de Alan, que na verdade é da Ana Rüsche e é dela que eu aprendi esse tipo de coisa, mas a gente vai deslocando as atribuições, e assim também se lembra que poesia se faz um pouco por contaminação, e não burocraticamente.
Enfim, fiquei um pouco chateado de ter gasto 95 reais para participar do evento, entre a aula que eu tive que cancelar e o táxi que eu tive que pegar para chegar a tempo, vocês vêem que enquanto poeta eu sou um péssimo corsário, mas isso vai melhorar, e afinal de contas nem é por isso que eu estou chateado.
Mas também já disse por que é, então não preciso ficar repetindo.
Publicado às 18h37 | Comentários: 0
agosto 20, 2008
Feira - mercado - bazar
Em inglês, é fair, que quer dizer também limpo, mas como sabemos que é uma língua suspeita, veja-se: quando qualifica pele, quer dizer branca.
Por outro lado, é um tipo específico de feira, como feira do automóvel, convenção anual de empinadores de pipa ou dos hackers unidos. Se for pra comprar frutas, peixe, ou pastel, é market, ou supermarket, na tradição que sabidamente importamos (monopolizar a distribuição, para controlar o produtor, e colocar um teto em cima, ar condicionado, e música, para dar a sensação de acolhimento e bem-estar -- não é à toa que é a segunda metáfora preferida para a fase atual do capitalismo)
Assim que o meu analista soube precisamente retraçar o caminho imagético inconsciente que eu já fazia, entre a Bienal do Livro, que é, a bem dizer, uma Feira do Livro, para o market, que aparece no The Man Who Knew Too Much, do Hitchcock (aliás o nome hitchcock merecia uma arqueologia própria), que se passa em Marrocos, e que eu estou usando numa aula, para bazar, palavra de origem persa, e portanto, árabe, que é como se chama esse tipo de market no Oriente, até o meu próprio nome, Omar, que todos sabem ser árabe, tão árabe quanto em Omar Sharif, que aparece no Lawrence da Arábia.
Isso tudo para dizer que estarei hoje à tarde, 19h30, no assim chamado Salão de Idéias Volkswagen (lembram aquela propaganda em que apareciam jovens ingênuos, com milho nos olhos, e planos mirabolantes para mudar o mundo? acharam que isso era nacional-alemão demais e chamaram nós, os poetas -- logo logo vocês voltarão a ver os jovens decididos e de fair skin na televisão, podem apostar).
Em Santana, Parque de Exposições Anhembi, Av. Olavo Fontoura, 1209.
Os que forem, poderão, com sorte, me ouvir recitar um poema do Yeats, que traduzi, apenas para exemplificar o papel dos poetas nesse mundo em que o carro, a primeira metáfora mais relevante para falar do capitalismo atual, é o ícone atrás do qual corre todo o resto, inclusive, e principalmente nessa bienal, a poesia, e também o mesmo poema que li na FLAP, e que vocês, por aqui, já conhecem. Isso não é falta de poemas, vocês sabem, mas a gente não pode ser modesto no próprio blog, que fica feio, ainda mais quando já está fazendo jabá mesmo, e tem-se que se admitir quando se mandou bem.
Agora vou tratar de imprimir as coisas para ler, e correr dar mais uma aula, que é disso que eu vivo: não, a volkswagen não me paga, como se eles estivessem fazendo a minha propaganda, e não o contrário.
Mas, quem sabe, eles estão mesmo certos, e são eles que estão fazendo a minha propaganda, e não o contrário.
Publicado às 14h34 | Comentários: 0
agosto 15, 2008
Não é nada demais
Terminou a FLAP semana passada, por isso retornei ao blog, e ainda não disse nada sobre como foi. Acontece que um evento dessa proporção é tão intenso, tão emotivamente desgastante, tão transformador em nossas vidas, que eu nem poderia falar muito. Os soldados voltavam mais silenciosos da guerra, não mais ricos em experiências, dizia W. Benjamin. Mas, de fato, passamos por muita coisa e tenho muito o que dizer, e se não tenho estado silencioso, também me resguardo de só falar da FLAP pessoalmente: quem viu, viu, quem não viu, só vai ouvir dizer. É assim. Mas o poema que eu li coloco aqui, como prometido, e ainda mais que hoje não tem nada melhor pra falar do ambiente em que nos encontramos, agora que voltamos ao normal.
NÃO É NADA DEMAIS
As pessoas só estão assustadas
não houve tempo e você sabe
as cenas se desenrolam sem um ensaio
sem sequer um roteiro
as pessoas pegam o que têm à mão
se você olha de longe pode perceber o medo
e o em si mesmo curiosamente animal das pessoas
Dirceu Villa - As pessoas só estão assustadas
Não é nada demais
nós só estamos assustados
hoje
se fizer frio e se chover ao mesmo tempo e por causa disso
só por causa disso não pudermos sair de casa
nós só estamos assustados
quando chegamos tarde da noite cansados e acendemos
todas as luzes da casa só estamos assustados
ao pedir para o garçom que nos troque de mesa ou os talheres
por algo mais confortável nós só estamos assustados
com os olhos pregados na embalagem de um alimento matinal
que vem pronto nós olhamos assustados para os gatos à noite
nós havíamos imitado os gatos à noite à noite
quando olhamos bem assustados para os olhos de alguém
e repetimos aquelas frases que escolhemos para declarar
nosso amor que pode bem ser amor verdadeiro como os tais girassóis de Van Gogh
para os quais nós também nós já olhamos assustados
nós só estamos assustados e falamos o tempo todo
de jogos de gato e rato e esperamos o tempo
de olharmos em volta como o gato, nós somos os ratos nós
só estamos assustados como quando começa o carnaval
e sabemos que se chove ou não
sempre sobra alguma coisa para nós porque
todas as ruas são becos e
todos os becos são avenidas intermináveis
nós só estamos assustados quando você volta atrás e decide
que agora sim vai me seguir embora não esteja clara a diferença
entre amor e adoração para que eu também te siga
e também assustado lhe digo que procuro
a um bairro industrial antigo quando passo pela praça
em frente de onde você morava e
penso que se me visse agora
ou não me reconhecia ou ficava muito assustada
nós só estamos assustados lado a lado pensando tratar de outro
assunto nós estamos ficando assustados porque digo a você
quero vê-la mesmo assim nós só estamos
assustados querida nós dormimos assustados nos braços
um do outro e acordamos ainda assustados
nos braços um do outro quando é tarde da noite e
passamos o dia todo em claro estamos muito assustados mesmo
assustados quando olhamos para o calendário e nos parece ver
ali outro futuro que não este a que estamos condenados
ficamos mais assustados nosso futuro ainda
não estava no calendário quer dizer que ainda
não estamos com os dias contados nós só estamos vivendo
num período em que chamam luz à escuridão
e embora minha língua esteja morta
suas formas me alucinam nós estamos vivendo
num período cujo nome não sabemos e
embora seja o medo que me move meu
coração está parando nós só estamos assustados
quando vendemos nosso carro muito barato quando compramos
outro carro mais caro nós só estamos assustados
quando vendemos nosso carro por uma bicicleta porque nossos filhos terão de esperar tempos melhores para nascer
nós só estamos assustados querida mas não chegue não chegue
perto talvez não ainda não seja o tempo em que se possa dizer que nós só estamos assustados.
Publicado às 11h13 | Comentários: 0
agosto 14, 2008
O brega é a antecâmara da falta de caráter
A breguice não se confunde com a falta de caráter, mas se relaciona com ela da mesma maneira como a fumaça se relaciona com o fogo.
Onde não existe caráter o parâmetro para agir não pode ser autêntico, resta a imitação. Não que a imitação seja a característica principal do brega, mas digamos que o brega é o que vem pela imitação. Mas esqueçamos a imitação e fiquemos só com o brega. As cenas se desenrolam sem um ensaio, sem sequer um roteiro, mas por que teriam de ser bregas? E muitas vezes, na maioria das vezes, o são. Falta de senso estético? Sem dúvida, mas o que é o senso estético senão um senso ético?
Está bem, por que eu não consigo arrematar meu ponto de vista? Acontece que você tem que tomar decisões difíceis na vida, e isso é tanto um senso ético como, em conseqüência, gera um senso estético: o brega é feito das decisões fáceis.
Antecâmara quer dizer que é uma preparação: o brega prepara a falta de caráter, do ponto de vista de quem entra no casebre; pode-se esperar encontrá-la ao afastar a cortina. Por outro lado, pode-se não entrar na casa, não afastar a cortina, e só conhecer a superfície: assim a religião, que é toda ela brega, mas não é inteiramente carecedora de caráter: às vezes ela é só superficial, preconceituosa, restritiva.
Também assim as putas, que não se deixam ver de perto.
Publicado às 18h38 | Comentários: 1
agosto 12, 2008
As virtudes revolucionárias (cont.)
Porque eu fiquei muitos dias sem falar nada (em português, quero dizer) que agora, tendo sempre que ter muito o que falar -- e costumo cumprir, e costumo cumprir! -- acabei não terminando o muito que tinha, mesmo com toda a falação.
A palavra é o que faz dos humanos humanos (Montaigne, Lacan) e isso significa que aquele que mente não é capaz de estabelecer com outro ser humano o mínimo do que diz respeito à convivência humana. Por isso Montaigne também diz que mais vale a companhia de um cão do que daquele que mente, e assim por diante.
Mas embora o Montaigne seja um cara muito foda e eu goste muito dele, vão dizer assim: balela, todo mundo mente e a sociedade está aí.
Aí, meus amigos já me antecipam, mas vamos mesmo assim: bela sociedade você usa como exemplo, tão orgulhosamente. Talvez as coisas não estivessem no buraco em que estão se...
Mas aí tenho duas outras contrariedades: primeiro, se não existe. Segundo, bem ou mal, a sociedade está mesmo aí, e nem dá pra dizer que o que se constrói é em cima das verdades, que embora a mentira bem sirva pra segurar o progresso (estou argumentando como meu contendor, que acredita em coisas como "a mentira" ou "o progresso"), ela ainda não chegou em níveis comprometedores, vamos dizer assim.
E não dá pra dizer porque: primeiro, estamos em níveis comprometedores, sem dúvida alguma, embora não da mentira, e sim de quase tudo; segundo, que também é bem verdade que o que se chama progresso vem bem em cima de uma porção de mentiras, e quase tudo que funciona hoje em dia tem computada a mentira no seu, digamos, cálculo: desde o sistema legal até a profissão de pedreiro. E os edifícios, legais ou esguios, vão sendo construídos.
O negócio é o seguinte, então (este ensaio era pra ser bem bonito, bem bonito mesmo, imaginem ele como algo que ficará para a posterioridade, ao final ressaltando a importância de se cumprir a própria palavra, e de tal forma que você passe a confiar mais na palavra dada do que numa cédula de dinheiro vivo):
O que acontece é que quando uma pessoa conta uma mentira, ela não se torna menos confiável por causa disso. O que acontece é que as mentiras de uma pessoa dizem tanto sobre ela quanto as suas verdades. E você pode confiar que ela será exatamente aquela pessoa que mente sobre determinado assunto etc. Isso é quase o mesmo que confiar. Porque ninguém mente sobre tudo o tempo todo, e nisso reside a questão. Bem mais simples que o Montaigne dizer que "fala-se a verdade de uma única forma, mas há infinitas formas para se mentir", quase citando Mateus, ao dizer que "larga é a porta, e vasto o caminho que conduz à perdição", mas "estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida".
Então a mentira parece ter pouco efeito sobre o mundo, e tanto menos efeito quanto mais abunda.
Mas não é não.
O que acontece é que a mentira não tem efeito porque tem uma outra coisa por trás dela, que é a convenção. Não se pode mentir a respeito da convenção, porque ela é uma coisa da qual todos têm conhecimento. Se eu digo que o negócio custa tanto, todo mundo sabe que custa menos, então a minha mentira é o mesmo que se eu dissesse: custa tanto, mas eu estou ganhando mais um tanto em cima, além do lucro socialmente aceitável, seus palermas -- só que sem o xingamento. O que é socialmente mais adequando ainda. Em seguida, os palermas também mentem: pode me fazer um desconto? Querendo assim não ser tão palermas assim. Mas estão mentindo, porque é convenção pedir desconto, e o vendedor sabe que comprarão mesmo assim: desculpe, não posso fazer desconto, o patrão não deixa -- todo mundo também tem patrão, e quem não tem, tem religião -- isso faz parte e depois talvez possa voltar a isso. E vai tudo na mesma.
Então o negócio é que se você quer parar de agir de acordo com as convenções já impostas -- e toda convenção é burra (Poe) -- você tem que começar a falar a verdade. E se você for radical mesmo, como eu, vai falar a verdade o tempo todo. Inclusive vai se foder por causa disso várias vezes, mas acontece que você vai começar a por as convenções em questão. E vai ter que bolar outras formas de resolver as coisas, formas novas.
E quanto mais relevante for a verdade que você defender, mais revolucionário vai ser defendê-la. Claro, ninguém tem que se sacrificar pela verdade (o sacrifício, o martírio, é uma forma horrível de mentira), mas o quanto você fizer vai ser poderosíssimo.
Se eu não trabalhasse tanto quanto trabalho, e tivesse o dia todo pra escrever, desenvolveria essa idéia exemplarmente, e escreveria um lindo ensaio sobre isso, que rivalizaria com alguns dos melhores do Montaigne. Eu não estou mentindo.
Mas essa é a web 2.0, você pode tomar qualquer idéia como um desafio, e vai ter sua própria coleção de exemplos, e vai provar por si mesmo, por experiência, por prática, o que o autor não foi capaz de provar em teoria. Tanto melhor.
Tanto melhor.
Isso está mal começando.
Publicado às 20h31 | Comentários: 4
agosto 10, 2008
As virtudes revolucionárias
Mas você só diz isso, é o que me dizem. Parece que, por sempre ter o que dizer, estabeleço um direito consuetudinário, uma obrigação pelo uso e pelo costume, e já não posso não ter o que dizer. Parece que sempre tenho que ter alguma opinião definitiva sobre algo.
E no entanto estar à altura! Isso é quase sempre o mesmo que lamber sarjeta, então vamos lá (não digam que não avisei, como se diz):
Mateus 7
1 Não julgueis, para que não sejais julgados.
2 Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.
6 Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.
7 Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á.
8 Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á.
9 E qual de entre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra?
10 E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente?
11 Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?
12 Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.
13 Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela;
14 E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.
15 Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.
16 Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?
17 Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus.
21 Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
22 Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas?
23 E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.
24 Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha;
25 E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha.
26 E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia;
27 E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda.
28 E aconteceu que, concluindo Jesus este discurso, a multidão se admirou da sua doutrina;
29 Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas.
Vocês já pensaram que a Bíblia pode ser bem revolucionária? Já pensaram que só colocar esses numerozinhos antes de cada verso é já significar que tudo ali é valioso, e que portanto pode ser saqueado, como ensinaria a Ana Rüsche, ainda que eu duvido que essa corsária tenha pensado já em saquear a própria Bíblia?
Agora imagine em saquear não só os versos, mas os próprios valores? Fazer de valores aparentemente antiquados, conservadores, valores revolucionários?
Estava me cagando de rir com minha mãe hoje no almoço, quando ela contou de uma mulher que não quis vir morar com o namorado em São Paulo, porque ela tinha a carreira. A carreira!
É tão engraçado ouvir que alguém leva em consideração algo como a carreira!
Tudo bem, liberação sexual, etc., não me venham os sexistas dizer que bem poderia ele ter ido morar na Bahia com ela!
As geleiras estão derretendo, o clima está descontrolado, a água e o petróleo, os líquidos mais importantes do planeta estão acabando, e a vadia vem me falar da carreira!
As pessoas estão tão assustadas com tudo, tão generalizadamente assustadas, que elas querem resolver tudo pra já, ou seja, aproveitar hoje tudo que seus filhos não vão poder aproveitar porque simplesmente não vai mais existir! É tão triste ver que pessoas realmente legais acabam se entregando a esse comportamento idiota e, como sabemos que julgam-se as pessoas pelos atos, não pelas intenções (Mateus 7:16; Código Penal, Parte Geral) são mesmo essas pessoas idiotas, e não outra coisa. O que, infelizmente, não nos impede de amá-las, porque (vd. Still, Alanis Morissette) somos mesmo umas pessoas bacanas e incorrigíveis enquanto o próprio mundo não se corrigir, quando só então poderemos descansar em paz, sim, viemos para mudar o mundo e não só vamos mudá-lo como já o estamos mudando (não ofereço referência literária para essa última afirmação, do que é evidente não se duvida (René Descartes, Meditações, 3a.)).
Mas tudo é muito engraçado quando você está do lado em que eu estou da ponte, de onde o panorama visto não é menos desolador, mas ao mesmo tempo é muito mais evidente, as pessoas têm nomes e os truques que funcionavam na década de 20 finalmente deixaram de funcionar.
Não sei se sou só eu, que nasci apenas três meses depois da vergonhosa lei da anistia, quase um escravo alforriado, portanto (o pessoal no Capão Redondo reclamando da opressão nas suas favelas de classe média -- eu não estou reclamando de ter ido à universidade, mas acho engraçado quando alguém reclama exclusividade em qualquer coisa nesse mundo), mas é que os velhos truques realmente não funcionam mais, depois de 89 ficou super bonitinho falar que se era de esquerda, e é tão legal ver isso ficar meio suspeito de novo, afinal de contas, mesmo que sem querer querendo, a nossa esquerda dominante parece ter reintroduzido esse elemento de verdade na nossa política, ainda que pela porta errada, mas as portas uma vez abertas viram porteiras, e agora é certo que seremos bastante suspeitos, sim, e não é do nosso voto que estaremos falando, não é das disputas partidárias e por posições no congresso que estaremos lutando -- a velha festa democrática, como dizem, aqueles que chamam de luta uma eleição que não pode (porque nem precisa) ser fraudada é já velho, velho aos vinte anos, aos dezesseis! Aliás, chega já a ser velho falar disso, mudemos de assunto.
Porque eu comecei foi com o segundo versículo desse capítulo 7 do Evangelho segundo Mateus, você não sabe, mas é um versículo bastante ambíguo, não é? Não julgueis, para não serdes julgados, porque com a medida com que julgardes, assim também sereis julgados. O que isso pode querer dizer: pense bem de todos, para que não pensem mal de você? O problema pra mim é de outra ordem. Não há nada que obrigue os outros a usarem nossa mesma medida, como uma espécie de justiça divina divinamente aplicada por agentes humanos. Claro que não é isso que o Mateus quis dizer, não há dois mil anos, por tutatis!
O negócio é que pra julgar você tem que entrar na intimidade do sujeito, você tem que compreender por onde vaga sua mente. Por que fez o que fez, o que faz, qual é a medida que o move? Qual? Quais são seus valores? E você o amará, como eu disse, porque seu coração é grande pra fazer entrar a alegria, e já terá sido ainda maior, para fazer entrar a tristeza, como eu disse naquele poema um pouco brega que eu acabei não lendo na FLAP, tendo guardado para usá-lo aqui e só li o melhor, não façam isso em casa.
Você o amará, sim, você o amará como a um igual, lá lá lá, isso é verdade, porque: não se deve oferecer coisas santas aos cães (Mateus 7:6), e porque: aquele que pede recebe, e o que busca, encontra; e, ao que bate, vai se lhe abrir (Mateus 7:8). E você vai se foder, porque os porcos voltam, esmagam as pérolas, e te atropelam, e você morre atropelado, é bem assim. Só que você não morre.
Então você volta um passo atrás antes de dar dois pra frente, e tendo já sido bastante amoral na vida, pode agora se dar ao luxo -- é mesmo um luxo, para os que não o conhecem -- de ser um pouco moral, e nesse caso também um pouco preconceituoso, e trata os cães como cães, os porcos como porcos -- e longe de que isso os faça amar menos -- nem os julga, nem convive tanto assim com eles que se sintam agraciados com qualquer santidade.
Sim, porque nesse momento -- in this very moment, en este mismísimo momento -- você será um santo.
Publicado às 14h44 | Comentários: 1
julho 18, 2008
Tão Longe, Tão Perto
Desculpem, meus amigos, mas eu estou vivendo demais para dentro -- escrevendo meu livro, preparando dois poemas para a FLAP, lendo Dostoiévski -- e para fora -- fazendo companhia aos amigos que viajam, que vão ter filhos, que chegam de viagem, e escrevendo para os que virão para a FLAP -- para que possa escrever aqui mais do que essas poucas linhas.
Se você estivesse aqui comigo, e tivéssemos bastante tempo, eu te convidaria pra assistir Tão Longe, Tão Perto.
Publicado às 10h49 | Comentários: 2
